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sábado, 28 de novembro de 2009

cabaré jamaica



na vida há
sempre uma
despedida

ponte & vírgula
da partida

preâmbulo dum
silêncio hirsuto

expirado
no que morre
nascedouro

(...e um rio
corre em mim)


(lau siqueira – poema vermelho)

HOTEL JAMAICA
Ontem fui levar uma das minhas filhas, Mariana, no aeroporto Guararapes, em Recife (hoje levo a outra, de muda pra Goiás). Cansado para pegar a estrada de volta para João Pessoa naquela hora noite alta, decidi pernoitar no estabelecimento mais próximo com cara de hotel. Pernoitei no Hotel Jamaica. Na verdade, um elo rotativo da cadeia do sexo barato na capital de Pernambuco. Uma cama de casal, uma TV com alguns canais (dois pornô)... sequer um frigobar. Mas, por R$ 40,00, não dormi na BR 101. Lá, esta madrugada, escrevi o poema acima. Na verdade, pensando em Tristan Tzara e seus hábitos dadaístas no Cabaré Voltaire (que nada tinha a ver com o Hotel Jamaica), em Genebra.

SÃO DEMAIS OS PERIGOS DADAÍSTAS
Um “perigo” invadia o mundo naquele momento histórico, o comunismo. A polícia secreta suíça vivia vigiando os poetas dadaístas que freqüentavam o Cabaré Voltaire. Afinal, eram bem estranhos os seus hábitos e poetas sempre foram chegados a revoluções. Vanguarda estética e vanguarda política, geralmente andam juntas. Ironicamente, quem morava em frente ao Cabaré Voltaire era ninguém menos que Lênin, que dois anos depois da deflagração do movimento dadaísta, saiu dali para fazer a Revolução na Rússia. Isso comprova o fato de que as polícias políticas, sempre foram míopes.

EXERCITAR O POEMA
A noite me pegou invadido pelos pensamentos na capital de Pernambuco. Tristeza e ansiedade, principalmente. Talvez um pouco de esquizofrenia contida. Escrever um poema em Recife é sempre um salto para dentro do modernismo brasileiro. Terra de poetas significativos da cena brasileira, como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho. Muitos outros, logicamente. Um elo futurista que nos faz encontrar Jomar Muniz de Brito, Lenine e Paulo Bruscky pelas ruas de Casa Forte ou no Marco Zero. E outros, outras... outras palavras.

REVER UMA RELEITURA
Fiquei chocado com alguns aspectos da
Feira do Livro de Porto Alegre. Um choque natural, já que não pisava lá há exatos 25 anos. Minhas bodas de estopa renderam um texto, publicado no meu outro blog, o Pele Sem Pele. Um texto que mereceu um contraponto bastante estranho com uma professora gaúcha e dois amigos seus (o registro está lá). Um contraponto bastante desfocado, porque me parecia muito mais afeito a um bairrismo gaudério que a uma defesa da Feira. Isso pode ser conferido nos comentários do blog.

PENSAR É, SOBRETUDO, REPENSAR
No entanto, vou fazer uma releitura do
meu próprio texto tentando reconhecer alguns exageros meus e publicar novamente. Principalmente no que tange às férreas críticas que tenho tecido ao mercado do livro brasileiro. Um mercado em franca ascensão. (Embora isso pouco represente em termos de expansão da literatura tradicional ou conteporânea). Certamente que eu poderia ter me detido mais nesse aspecto que me parece central para um debate sobre as políticas do livro e da leitura no país.

SÉCULO XXIIIIIIIIIII...
Enquanto o mundo começa a fazer uma reflexão mais filosófica e científica sobre o que se movimenta estética, econômica, política e socialmente por detrás da cibercultura, algumas idéias ainda parecem assustadoramente estagnadas. Afinal, somos apocalípticos ou integrados? Parece que Umberto Eco esqueceu-se de apontar uma terceira via, ou quarta via... Na verdade, o futuro é múltiplo de todos os passados e invenções do presente. A poesia contemporânea, inclusive, nasce daí. Mas, esse papo eu abordo dia desses, no
Pele Sem Pele.

UM POEMA DE RONALD AUGUSTO

jejum ergo coroa destronante
jejum disse jesuscristo enquanto
levava à testa renhidos picos

cesto vazio seco sem o pão ázimo
nem azia nem pedrarias beco
básico câmara contraespiã

movediça e espetacular
desdobrando braços no mais íntimo
do palácio elísio e kublai Khan


(do livro No assoalho duro, Ed. Éblis, 2007. O gaúcho Ronald é integrante do grupo PoETs, tema da minha próxima coluna no portal Cronópios. Conheça o blog de Ronald, o Poesia Pau, http://www.poesia-pau.blogspot.com/)

Um comentário:

susannah disse...

Seu poema toca num ponto difícil de reconhecer: o encontro-despedida, que parece ser uma dobra que resvala em outra, um morrer necessário a cada encontro pois para encontrar é preciso morrer para algumas coisas: dobra e redobra permanentes. Não sei até que ponto isso me incomoda ou me faz uma folha no vento... sempre pronta para beijar uma pedra ou musgo, água ou lama.
Bjs!