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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

topografia


toda dor
tem seu curso
final e sua primaz
agonia

é como uma estaca
atravessando o córtex e o
abdome com felpas
espinhentas sem nome

toda dor
tem seu curso
final e sua primaz
agonia

antanho de distâncias
fado vezes afônico
e cuspido do circo vital
- fruto já sem casca

toda dor
tem seu curso
final e sua primaz
agonia

(lau siqueira – série Poesia Sim. Poemas que podem ser mudados ou mesmo excluídos a qualquer tempo)

ESCREVER ENTRE OS CAMINHOS
Concordo com Edgar Morin, quando diz “Não escrevo de uma torre que me separa da vida, mas de um redemoinho que me joga em minha vida e na vida” (em Meus Demônios). Todo poema é produto de uma circunstância. Seja ela emocional, intelectual ou difusa. Algumas vezes parece que o poema bebe nessas três fontes. E arrebenta as emoções de quem escreve ou lê, em cada palavra; e lapida com rigor as madeixas do excesso... mas, principalmente, todo poema é um mergulho num absurdo abismo, onde não sabemos o que será e se o que fica. Todo poema é sempre um eterno e inconcluso caminho.

A PALAVRA E A CIRCUNSTÂNCIA
Toda arte é, de certa forma, o ponto de abuso entre a racionalidade e a possibilidade. O ápice da racionalidade é exatamente reconhecer que a arte é a racionalidade conjugada ao infinito. No entanto, a feitura estética em qualquer suporte, requer uma paciente mirada ao que bate na pele, como um vento ou uma chuva... Certezas que não dependem de nós. Por isso quando leio teses obesas de vaidade, falando que escrever poemas é isto e aquilo, penso que o conhecimento real é aquele que sempre reconhece diante de si um caminho para muito além de tudo que já foi dito. E a racionalidade não pode ser compreendida, jamais, sobre o limite territorial do pensamento de Descartes.

TEORIA DO NÃO-ABJETO
Não são desprezíveis as teorias que, num ato de soberania, apenas duvidam, levantam hipóteses. Teorias que arriscam e não apenas as que navegam em céu de brigadeiro, certamente que batendo continência para os pássaros, sem compreendê-los. O pensamento humano é flutuante e suas descobertas mais geniais são fruto, muitas vezes, do que se poderia considerar um erro.

UM POEMA DE CIDA PEDROSA

de costas
berenice se põe para o desejo

animal de quatro patas
exposto ao pássaro
e ao sabor das asas

a bunda em arco
se abre em pétalas
e expõe o sumo ao beija-flor

de costas
berenice se põe para o desejo
e espera o adentrar do pássaro
e os auspícios da lua

(Berenice, poema da pernambucana Cida Pedrosa, do livro As Filhas de Lilith)

4 comentários:

um cavaleiro andante na terra do carvão disse...

.
.
é correto errar quando se está acertando!!

parabéns pelo blog.

leila saads disse...

Linda a imagem da agonia, daquela beleza triste de quem já sentiu-se em seu limbo de impotência.

SAM disse...

Lau,

gostei muito do texto e das considerações. Affonso Romano de Sant'Anna no livro A Catedral de Colônia, livro tido como circunstancial caracterizado por uma época em que predominava o regime autoritário e que faço largo uso de seus poemas em razão das semelhantes circunstâncias nos dias de hoje . E creio que assim será sempre. Como a música de Noel Rosa, poeta, letrista e músico em suas letras imortais e atemporais, inspiradas no cotidiano ( ando ouvindo Onde anda a honestidade).

“...Todo poema é produto de uma circunstância. Seja ela emocional, intelectual ou difusa. Algumas vezes parece que o poema bebe nessas três fontes. E arrebenta as emoções de quem escreve ou lê, em cada palavra; e lapida com rigor as madeixas do excesso... mas, principalmente, todo poema é um mergulho num absurdo abismo, onde não sabemos o que será e se o que fica. Todo poema é sempre um eterno e inconcluso caminho.”

Perfeito, no meu entendimento.

Deixo aqui, um rabisco escrito por minha filha Maki, ainda muito jovem na época.

COSTUME


" Sintonia, de perfeito com o conceito.
Poesia do ligeiro místico de um falsário humano...
E a sintonia - a poesia - nunca foi o que entendemos".


Duplo imaginário de retratos
Trancado como um feudo de memórias
Engavetando as cartas, num entre – aberto
De um diálogo sonoro rabiscado

E nosso livro de nome abstrato
Que te permeia o mesmo sono
E agarra-me surgindo, jubiloso
Das ondas respingadas de teu canto
Permita-o enforcar o devaneio
Dos códigos de um dicionário...

Sobrando a página da existência hermética
Entregue pelas frestas fumacentas

Dos gestos controversos de um entalhado
Para o escritor distante, admirador destes anseios...

A história nos criou a fragrância
E fomos nós o moinho-de-vento
És o que mexe no fundo contente
Dos arpejos de um Poema
Tu és o costume que não sai de mim.

Mariana F.Costa Lima


Abraço e desculpe por escrever tanto rsrs.

SAM disse...

* Esqueci de falar do poema visual de Constança, de quem sou admiradora extremada. Amei.