quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

solos do silêncio



saudade é doce
que amarga no ato
diagonal do existir

coisa de quem pensa

(viver
implica sentir profundo
a delicadeza de
quando as máscaras
estão nuas
sobre a serragem que
cobre o chão dos
trigais...)

saudade é doce
que amarga no ato
diagonal do existir

coisa de quem pensa


(lau siqueira – poema vermelho)

UM NOVO ANO NOVO
Escrevo para o blog nas últimas horas de 2009. Um ano de poucos avanços, mas muitos aprendizados. Um ano de resistência, de vontade, de sonhos decaídos... mas, realidades transformadas. Vamos para 2010 com asas de quem sabe que muito mais que pelo vôo, a beleza do pássaro está na verdade do canto. Ir em frente, sempre. Levar as mesmas bandeiras, ainda que caminhemos com os olhos vendados para não nos perdermos do invisível.

DO POEMA E SUAS RAZÕES
Tem poema que explode em linguagem e nos tornamos seus cavalos de tróia, a inventar as surpresas de uma racionalidade completamente disponível para os batuques da invenção. Tem poema que pede para nascer. E o parto torna-se um jogral de impossibilidades. Até que o silêncio absoluto aponta e diz que o poema às vezes é controverso - ou mesmo contra o verso.

DO POEMA E SUAS RAZÕES I
Cada poeta tem seu processo particular de escrita ou mesmo de fomentar imagens invisíveis. Cada poeta sabe dos seus caminhos pelos becos da linguagem. Ou seriam linguagens? Não importa. Porque a linguagem, na poesia é exatamente isso: algo uno e diverso ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo em que se perde em pradarias, descobre montanhas, açudes, oceanos de possibilidades. Cada poeta tem diante de si uma deusa generosa que não se resume jamais.

TEORIA DO POEMA
Cada poema contém seus próprios tratados. O sublime não é uma lei de Longino. Assim como não era de Cecílio. Por outro ângulo, o que fazia Simmias, há mais de dois mil anos, na Grécia? Ora, não se deve temer o fato de não estar inventando absolutamente nada. Vergílio era a leitura oficial, segundo Pound, mas Dante foi muito mais influenciado por Ovídio. Ou seja: cada poeta inventa a sua própria teoria. Cada poema vale um tratado. Mas, isso não é papo para essas poucas linhas.

EZRA POUND
“Há uma qualidade que une todos os grandes escritores: escolas e colégios são DISPENSÁVEIS para que eles permaneçam vivos para sempre. Tirem-nos do currículo, lancem-nos à poeira das bibliotecas, não importa. Chegará um dia em que um leitor casual, não subvencionado nem corrompido, os desenterrará e os trará de novo à tona, sem pedir favores a ninguém.” (do livro ABC da Literatura)

UM SITE
Há anos ganhei um site de uma amiga. Era final dos anos 90 e o nome do site era O Guardador de Sorrisos. Era também o título do meu segundo livro, lançado pelo Projeto Editorial Trema. Agora vou ganhar outro. Vou ver que conteúdo reúno por lá, as, certamente uma coletânea de poemas dos meus 4 livros publicado com mais o ainda inédito Poesia Sem Pele. Este será, provavelmente, meu primeiro empreendimento do ano. Em breve, pois, estarei anunciando amplamente o material publicado. De qualquer forma, pretendo algo bastante interativo.

UM POEMA DE MANUEL DE BARROS


Tem quatro teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda; que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra.
>>>>>>>um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há árvores avulsas uma assimilação maior
>>>>>>>de horizontes.


(em O Guardador de Águas, Editora Record-SP, 1991)

8 comentários:

Constança Lucas disse...

Boas novas, força criativa e vontade redobradas, haja muitas possibilidades e realizações

Saudade é coisa de quem pensa - é mesmo

Bom 2010!!!!!!!!!!!!

abraços cordiais
Constança

Marli Reis disse...

coisa de quem pensa

Se escrito assim, destacado no poema, melhor para entrar nesse teu "solos do siêncio".
Parabéns! Obrigada! Feliz 2010!
Abraço!

susannah disse...

Sem medo de mirar o abismo e ouvir o som e o sentido que a linguagem revolve dentro de si é que o poeta pode construir o seu ABC da literatura. Os que se instalam confortavelmente no abrigo falso das categorias ou correntes poéticas vivem a ilusão de caminhar como poetas. Rever sempre, rasgar, retornar, traduzir, roer até os ossos a tradição (e a si mesmo) e devolvê-la em destroços ou em nódulos de sementes, é o que faz de alguém que escreve um poeta que pensa criticamente a linguagem e o mundo. Não quero fazer teoria, mas pensar isso tudo é ncessário e mais forte que eu. Obrigada por vc trazer esses pensamentos à baila, ainda que o espaço seja curto e o tempo um segundo.
Ah! Ia esquecendo: tem poema meu na Zunai de dezembro...

lourdes disse...

Parabéns pelo blog!
Concordo em grau e gênero com vc., poeta com tudo q diz sobre a poesia.O q vale mesmo é a criação; não importa o padrão nem a escola.Já amei!Do fundo coração e vai ficar 'o refrão.

lau siqueira disse...

Pois é, Constança... saudades é coisa de quem pensa. Marli, somente exercitando muito o pensamento é possível arrancar solos do silêncio.Susannah, obrigado por me ajudar a pensar a poesia em 2009. Tudo em vc é teoria do poema, querida... e poesa pura. Lourdes, espero que volte sempre...
Feliz 2010.

Henrique Pimenta disse...

Um 2010 supimpa, meu caro Lau Siqueira! Sucesso nos projetos! E muita, muita saúde!!!

Nydia Bonetti disse...

Também gosto dos poetas e dos poemas sem máscaras. Autenticidade pura - e rara - é o que encontramos por aqui.

Felicidades, Lau!

lau siqueira disse...

Há braços, Pimenta! Gracias, Nydia. Bjs