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POESIA SIM - Este blog é um rascunho de todas as minhas catástrofes em busca da poesia.
(Lau Siqueira)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

topografia


toda dor
tem seu curso
final e sua primaz
agonia

é como uma estaca
atravessando o córtex e o
abdome com felpas
espinhentas sem nome

toda dor
tem seu curso
final e sua primaz
agonia

antanho de distâncias
fado vezes afônico
e cuspido do circo vital
- fruto já sem casca

toda dor
tem seu curso
final e sua primaz
agonia

(lau siqueira – série Poesia Sim. Poemas que podem ser mudados ou mesmo excluídos a qualquer tempo)

ESCREVER ENTRE OS CAMINHOS
Concordo com Edgar Morin, quando diz “Não escrevo de uma torre que me separa da vida, mas de um redemoinho que me joga em minha vida e na vida” (em Meus Demônios). Todo poema é produto de uma circunstância. Seja ela emocional, intelectual ou difusa. Algumas vezes parece que o poema bebe nessas três fontes. E arrebenta as emoções de quem escreve ou lê, em cada palavra; e lapida com rigor as madeixas do excesso... mas, principalmente, todo poema é um mergulho num absurdo abismo, onde não sabemos o que será e se o que fica. Todo poema é sempre um eterno e inconcluso caminho.

A PALAVRA E A CIRCUNSTÂNCIA
Toda arte é, de certa forma, o ponto de abuso entre a racionalidade e a possibilidade. O ápice da racionalidade é exatamente reconhecer que a arte é a racionalidade conjugada ao infinito. No entanto, a feitura estética em qualquer suporte, requer uma paciente mirada ao que bate na pele, como um vento ou uma chuva... Certezas que não dependem de nós. Por isso quando leio teses obesas de vaidade, falando que escrever poemas é isto e aquilo, penso que o conhecimento real é aquele que sempre reconhece diante de si um caminho para muito além de tudo que já foi dito. E a racionalidade não pode ser compreendida, jamais, sobre o limite territorial do pensamento de Descartes.

TEORIA DO NÃO-ABJETO
Não são desprezíveis as teorias que, num ato de soberania, apenas duvidam, levantam hipóteses. Teorias que arriscam e não apenas as que navegam em céu de brigadeiro, certamente que batendo continência para os pássaros, sem compreendê-los. O pensamento humano é flutuante e suas descobertas mais geniais são fruto, muitas vezes, do que se poderia considerar um erro.

UM POEMA DE CIDA PEDROSA

de costas
berenice se põe para o desejo

animal de quatro patas
exposto ao pássaro
e ao sabor das asas

a bunda em arco
se abre em pétalas
e expõe o sumo ao beija-flor

de costas
berenice se põe para o desejo
e espera o adentrar do pássaro
e os auspícios da lua

(Berenice, poema da pernambucana Cida Pedrosa, do livro As Filhas de Lilith)

sábado, 28 de novembro de 2009

cabaré jamaica



na vida há
sempre uma
despedida

ponte & vírgula
da partida

preâmbulo dum
silêncio hirsuto

expirado
no que morre
nascedouro

(...e um rio
corre em mim)


(lau siqueira – poema vermelho)

HOTEL JAMAICA
Ontem fui levar uma das minhas filhas, Mariana, no aeroporto Guararapes, em Recife (hoje levo a outra, de muda pra Goiás). Cansado para pegar a estrada de volta para João Pessoa naquela hora noite alta, decidi pernoitar no estabelecimento mais próximo com cara de hotel. Pernoitei no Hotel Jamaica. Na verdade, um elo rotativo da cadeia do sexo barato na capital de Pernambuco. Uma cama de casal, uma TV com alguns canais (dois pornô)... sequer um frigobar. Mas, por R$ 40,00, não dormi na BR 101. Lá, esta madrugada, escrevi o poema acima. Na verdade, pensando em Tristan Tzara e seus hábitos dadaístas no Cabaré Voltaire (que nada tinha a ver com o Hotel Jamaica), em Genebra.

SÃO DEMAIS OS PERIGOS DADAÍSTAS
Um “perigo” invadia o mundo naquele momento histórico, o comunismo. A polícia secreta suíça vivia vigiando os poetas dadaístas que freqüentavam o Cabaré Voltaire. Afinal, eram bem estranhos os seus hábitos e poetas sempre foram chegados a revoluções. Vanguarda estética e vanguarda política, geralmente andam juntas. Ironicamente, quem morava em frente ao Cabaré Voltaire era ninguém menos que Lênin, que dois anos depois da deflagração do movimento dadaísta, saiu dali para fazer a Revolução na Rússia. Isso comprova o fato de que as polícias políticas, sempre foram míopes.

EXERCITAR O POEMA
A noite me pegou invadido pelos pensamentos na capital de Pernambuco. Tristeza e ansiedade, principalmente. Talvez um pouco de esquizofrenia contida. Escrever um poema em Recife é sempre um salto para dentro do modernismo brasileiro. Terra de poetas significativos da cena brasileira, como João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho. Muitos outros, logicamente. Um elo futurista que nos faz encontrar Jomar Muniz de Brito, Lenine e Paulo Bruscky pelas ruas de Casa Forte ou no Marco Zero. E outros, outras... outras palavras.

REVER UMA RELEITURA
Fiquei chocado com alguns aspectos da
Feira do Livro de Porto Alegre. Um choque natural, já que não pisava lá há exatos 25 anos. Minhas bodas de estopa renderam um texto, publicado no meu outro blog, o Pele Sem Pele. Um texto que mereceu um contraponto bastante estranho com uma professora gaúcha e dois amigos seus (o registro está lá). Um contraponto bastante desfocado, porque me parecia muito mais afeito a um bairrismo gaudério que a uma defesa da Feira. Isso pode ser conferido nos comentários do blog.

PENSAR É, SOBRETUDO, REPENSAR
No entanto, vou fazer uma releitura do
meu próprio texto tentando reconhecer alguns exageros meus e publicar novamente. Principalmente no que tange às férreas críticas que tenho tecido ao mercado do livro brasileiro. Um mercado em franca ascensão. (Embora isso pouco represente em termos de expansão da literatura tradicional ou conteporânea). Certamente que eu poderia ter me detido mais nesse aspecto que me parece central para um debate sobre as políticas do livro e da leitura no país.

SÉCULO XXIIIIIIIIIII...
Enquanto o mundo começa a fazer uma reflexão mais filosófica e científica sobre o que se movimenta estética, econômica, política e socialmente por detrás da cibercultura, algumas idéias ainda parecem assustadoramente estagnadas. Afinal, somos apocalípticos ou integrados? Parece que Umberto Eco esqueceu-se de apontar uma terceira via, ou quarta via... Na verdade, o futuro é múltiplo de todos os passados e invenções do presente. A poesia contemporânea, inclusive, nasce daí. Mas, esse papo eu abordo dia desses, no
Pele Sem Pele.

UM POEMA DE RONALD AUGUSTO

jejum ergo coroa destronante
jejum disse jesuscristo enquanto
levava à testa renhidos picos

cesto vazio seco sem o pão ázimo
nem azia nem pedrarias beco
básico câmara contraespiã

movediça e espetacular
desdobrando braços no mais íntimo
do palácio elísio e kublai Khan


(do livro No assoalho duro, Ed. Éblis, 2007. O gaúcho Ronald é integrante do grupo PoETs, tema da minha próxima coluna no portal Cronópios. Conheça o blog de Ronald, o Poesia Pau, http://www.poesia-pau.blogspot.com/)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

somneto



na desinvenção de tudo
flores sumiram da janela
e nuvens desceram como
estrelas de intenso brilho

paredes forjaram pavios
e tudo feneceu num oco
de folhas sombreando
uma arapuca de ventos

exasperação do escuro
duma lágrima que bruma
num olhar escarpado

alamedas diluídas num
rosto nômade y noturno
- mordendo espumas

(lau siqueira – poema vermelho)

POESIA DIGITAL
Não sei quando vou publicar meu próximo livro. Nem sei se vou publicar meu próximo livro. No entanto me alegram as visitas que dizem Poesia Sim. Circunstâncias aladas e instantâneas como essa prática de escrever um poema e colocar numa garrafa, jogado-a ao mar. Esse mar de cibercoisas que nem sempre sabemos traduzir com exatidão, apesar das teses, apesar do tesão...

A PALAVRA SAUDADE
Penso que somente tenho saudade das coisas que não vivo. Dos momentos de ternura que não desfruto. Dos amores que não reparto. Dos delírios que me atam no espaço. A palavra saudade, algumas vezes, não machuca... arde!

DENUNCIO!
Minha filha, Mariana, concluinte de Design de Interiores no IFPB, deficiente auditiva oralizada, lamentavelmente foi impedida de fazer teste para estágio em uma empresa daqui de João Pessoa. Mesmo com seu curriculum aprovado e indicado pelo CIEE – Centro de Integração Empresa-Escola. E o motivo externado pelo CIEE foi exatamente este: é deficiente auditiva e a empresa não aceita! Uma deficiência que não a impede de lidar com destreza com softwares como AutoCAD, Cinema D4 e realizar com perícia, tarefas de renderização, projeto e decoração de ambientes. Vou acionar o Ministério Público.

OS MEIOS DA MENSAGEM
Recebi por e-mail dois poemas de muita contundência. Coisa de calar algumas cabecinhas estreladas da poesia contemporânea. Nunca tinha lido nada da sua autora, Magna Moraes. Com autorização da mesma, cumpro a ousadia de publicá-los aqui no Poesia sim. Imensa é a alegria de tê-la descoberto neste universo cibernético. Os poemas de Magna fecham a boca dos críticos incautos da poesia que hoje circula na rede. É possível sim, num garimpo apurado, encontrarmos textos de qualidade indiscutível. A prova está aqui.

DOIS POEMAS DE MAGNA MORAES


Duelo

Nos dias em que sou santa
lavo os pés do amante

Nos dias em que sou bruxa
lhe cuspo na cara

Sou gota de lágrima
ou língua afiada?

Sou pingo de chuva
ou ponta de faca?

Maria? Messalina?
Canto a noite ou dia?

Faço um filho
ou sigo sozinha?


São Jorge

O galopador de mundo me guia
Para o lado esquerdo das coisas
Em direção à mudez dos astros
E à transparência dos gestos
Palavras: só as onomatopaicas
E nas noites profundas: os risos
Nada para se compreender
Exceto a luz e a sombra do cavalo
Nenhum rastro de Deus
Nem do homem,
que pisou na lua
e se perdeu

(recebi os dois poemas por e-mail da professora e escritora Joana Belarmino. Publico com a autorização da própria autora)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

espasmo



a tristeza
é um lobo mirando
estrelas numa noite
>>>>>>>>sem lua

nunca sabemos
de onde os uivos
arrancarão a pele

e os pelos
do que sibila
no olhar

e tão somente
guarda-se num
vazio íngreme

valente

como quem
todo dia
morre sorrindo


(lau siqueira – poema vermelho)

AS RAZÕES DO POEMA
O poema, não raras vezes, nasce de alguma coisa muito próxima da realidade. No entanto, Pessoa tinha razão. Nunca é mais que algo absolutamente irreal, fingido (ou quase)... As palavras são despidas de sentimentos. Já os sentimentos, não. Nem sempre. Algumas vezes eles nascem na pele das palavras. No tênue de uma derme que não se decompõe nem mesmo no mais absoluto silêncio.

MINICONTOS
Escrevi um texto sobre o livro de Marcelo Spalding e Laís Chaffe, dois escritores gaúchos. Espantou-me profundamente a capacidade que tiveram de publicar uma obra dupla, com tamanha unidade. Marcelo e Laís são gaúchos. Escritores e empreendedores dessa grande ciranda da economia da cultura. Confira aqui o texto sobre o livro! (
http://lau-siqueira.blogspot.com/)

CONSCIÊNCIA NEGRA
Hoje participei de uma mesa de abertura de um Seminário da Consciência Negra. Encanta-me sempre a possibilidade de implantação de políticas públicas que sejam a sustentação de ações realmente transformadoras. Desencantam-me as vaidades e as apropriações indébitas da história. Nós, poetas, temos um compromisso histórico com as lutas por igualdade. Os poetas do romantismo brasileiro, por exemplo, eram militantes da vanguarda abolicionista. Estavam ombro a ombro com Zumbi dos Palmares.

POETAS CONTRA A HOMOFOBIA
A violência tem muitas faces. Uma das mais visíveis é o preconceito. Seja de que tipo, de que matiz for... Lá na Feira do Livro eu li na capa de um livreto sobre homofobia, uma frase de Albert Einstein que dizia mais ou menos assim: “que sociedade é esta, onde é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. No blog do Antônio Cícero, podemos acessar a votação de uma lei contra a homofobia. Visite-o!
http://antoniocicero.blogspot.com/2009/11/lei-contra-homofobia.html

IGUALDADE
Hoje ouvi um cidadão falar de utopia, como se utopia fosse o irrealizável. Engano, amigo. As utopias nos ensinam a caminhar pelo mundo, transformando as coisas consideradas imutáveis.

POEMA DE PAUL ÉLUARD

Apenas desfigurada

Adeus tristeza
Bom dia tristeza
Estás inscrita nas linhas do teto
Estás inscrita nos olhos que amo
Não chegas a ser a miséria
Pois os lábios mais pobres te denunciam
Por um sorrisoBom dia tristeza
Amor dos corpos amáveis
Potência do amor
Cuja amabilidade surge
Como um monstro sem corpo
Cabeça desapontada
tristeza belo rosto

(ÉLUARD, Paul. La vie immédiate. Paris: Gallimard, 1981. Tradução do próprio Antônio Cícero, em seu blog cujo link vc pode encontrar aqui no Poesia Sim)

sábado, 14 de novembro de 2009

arquipélago


surreal e cingido
como luas vermelhas
numa noite imunda
de estrelas

cuspindo silêncios
espumados no
repouso duma voz
sombria

volúpia das águas
num oceano denso
de estios

(((((((((((((( rio )


(lau Siqueira – poema vermelho)

EU COMI CARPINEJAR
Calma! É verdade, mas não é bem assim. Ocorre que uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre é o stand Degustação Literária. Os poemas são impressos em um papel especial, de fibra de arroz, com sabores diferenciados. Depois de ler o poema podemos comê-lo. Li e comi um Fabrício Carpinejar. E digo mais: era delicioso.

ELE ERA UM CAVALHEIRO
Estava assistindo a amiga Laís Chaffe no stand da Degustação Literária, onde escritores são chamados para falar dos seus processos e da sua obra, com chapéu de Mestre Cuca e avental. Um senhor sentou do meu lado e começou a recitar Olavo Bilac no meu ouvido e ficou protestando: “ninguém mais recita Bilac! A juventude não conhece os grandes poetas.” Conversamos bastante. Ele é um militar reformado e tem 82 anos. Freqüentador assíduo da Feira. Se chama cavalheiro. (Esse é o espírito da Feira do Livro de Porto Alegre!)

CIDADE POEMA
O sarau Cidade Poema aconteceu na Arena de Histórias, um lugar muito bem transado. Comigo, participaram alguns poetas gaúchos, como José Antônio Silva, Laís Chaffe, Alexandre Brito, Sidnei Schneider, Christina Dias, Laís Chaffe e Paulo Seben. Um bom público na arena, muitos jovens. Não sei descrever o prazer de ter participado deste momento com poetas da minha terra.

O LUCRO DA FEIRA
Eu li algum tubarão lamentando a queda nas vendas em relação ao ano passado. Uma queda acentuada, de 17%. Eles não conseguem ver na Feira outro valor que não o valor comercial. Não sabem o quanto a Feira do Livro de Porto Alegre traz de benefícios para a cidade em muitos aspectos. Também não calculam o movimento da economia da cidade em muitos outors setores, durante a Feira. Desenvolvimento é uma coisa, lucro é outra. A Feira não pode se transformar num supermercado de Best Sellers somente para satisfazer os tubarões do livro e da leitura.

RATOS DE FEIRA
Quando morava em Porto Alegre estava entre os que freqüentavam a Feira diariamente. Não somente para comprar livros, pois não tinha dinheiro para isso. Mas, para respirar cultura junto aos acontecimentos paralelos, às pessoas, enfim... Ontem, das 16 às 20:30h, fiquei com os olhos fixos nos stands e nos balaios. Comprei muitos livros, mas sobretudo saciei a vontade de respirar a Feira. Sequer na Casa de Cultura Mário Quintana (a minha Meca) coloquei os pés. Hoje meu passeio se dará pela Casa, pelos museus e pelo belíssimo Memorial do Rio grande do Sul.

POEMA DE LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO

Um dia, meu filho,
disse o velho índio
indicando o topo das árvores
como quem afasta um véu,
tudo isto será céu.

(publicado em adesivo pelo projeto Cidade Poema, lido por mim no sarau homônimo)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

brios




todo dia
escrevo
n’água
uma
palavra
eterna

depois
apago
tudo
com o
sopro
das
nuvens

e o rio
corre
corre
corre
morre

nau
fragan
do
silên
cios


(lau siqueira – poema vermelho)

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
Viajo daqui a pouco. Chego hoje às 12:30, em Porto Alegre. À noite, participo do sarau Cidade Poema na Arena de Histórias do Cais do Porto, juntamente com os poetas gaúchos José Antônio Silva, Paulo Seben e Christina Dias. A mediação ficará por conta dos escritores gaúchos Fernando Ramos e Laís Chaffe. Vai ser tudo de bom! Confira aqui a programação completa da Feira do Livro:
http://www.feiradolivro-poa.com.br/programacao.php

PRAÇA DA ALFÂNDEGA
Certamente que antes disso vou procurar meus passos antigos. Certamente que vou encontrá-los esquecidos de mim, ainda presos aos ladrilhos, às folhas das árvores, ao ácaro dos livros que não pude comprar. Era um habitante assíduo da Feria do Livro de Porto Alegre. Mais de vinte anos depois, meu retorno à Feira do Livro é um encontro comigo mesmo. Vou carregado de poesia... vou leve, leve... Certamente que volto mais livre.

EXPOSIÇÃO POEMA EM FOCO
Com apoio da Biblioteca Pública do Estado do RS e em comemoração e dentro das comemorações do Bicentenário do nascimento de Luiz Braille, está acontecendo a exposição "Poema Em Foco, no Castelinho do Alto da BronzeRua Vasco Alves, 437, em Porto Alegre, até o dia 15/11. Sempre a partir das 15:30h, com os seguintes artistas plásticos e poetas: Alexandre Brito, Alice Ruiz, Cairo Trindade, Cláudia Gonçalves, Denis Radünns, Fabio Brüggmann, Glauco Mattoso, Gilberto Wallace, Jaime Medeiros Jr, Jiddu Saldanha, Juliana Meira, Liana Marques, Lau Siqueira, Mara Faturi, Mario Pirata, Nicolas Behr, Renato Mattos, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Rosane Morais, Sandra Santos, Sidnei Schneider, Telma Scherer, Tulio Henrique Pereira.

LER POEMAS
No sarau Cidade Poema vou ler poemas meus e de outros poetas do projeto. Ler poemas é sempre uma incógnita. Não é, logicamente, uma leitura linear. A leitura de um poema ampara-se na leitura de outros textos, na leitura de imagens do mundo, na leitura dos tentáculos de uma vida de muitos olhares e poucos braços. É uma leitura de sabres e plumas...

LIDAS DA LEITURA
Exatamente por não ser uma leitura fácil, o poema cumpre um papel fundamental na formação cidadã. Antônio Cândido já dizia que a Literatura deveria ser um dos Direitos Humanos. Um bom leitor de poemas compreende melhor até mesmo a física quântica. A cidadania plena somente se dá a partir de uma compreensão sensível do mundo, da arte, da ciência e da empulhação que nos cerca.

CIDADE POEMA
Conheça o projeto Cidade Poema, idealizado e executado pela escritora gaúcha Laís Chaffe. O projeto vem espalhando poemas pela cidade de Porto Alegre, seja em outdoors, busdoors, adesivos em elevadores de shoppings, em banheiros, em hospitais, bolachas de chopp. Enfim, um projeto pra cidade viver poesia. Veja o site:
http://www.cidadepoema.com/

A POESIA DE ROBERT DESNOS

Nós somos os pensamentos arboresces que florescem nos caminhos dos jardins cerebrais.
Irmã Ana, minha Sant’Ana, você não vê nada vir...
Até o Santa Ana?
- Eu vejo os pensamentos exalarem as palavras.
- Nós somos os pensamentos arborescentes que florescem
nos caminhos dos jardins cerebrais,
de nós nascem os pensamentos.
- Nos somos os pensamentos arborescentes que florescem sobre os caminhos dos jardins cerebrais.
As palavra são nossas escravas.
- Nós somos
- Nós somos
- Nós somos as letras arborescentes que florescem sobre os
caminhos dos jardins cerebrais.
Nós não temos escravos.
- Irmã Ana, minha irmã Ana, o que você vê chegar à Sant’Ana?
Eu vejo pensamentos
Eu vejo crânios despedaçados
Eu vejo mãos desfalecidas
Eu os amo
Eu vejo os pensamentos arreferecem e mulheres amadas
e pulmões com tanto ar e água,
pulmões afogados em pontes inimigas
Mas o momento seguinte já é passado
- Nós somos as arborescências que florescem nos desertos
dos jardins cerebrais.

(P’Oasis, do poeta surrealista francês Robert Desnos. Tradução de Eliza Andrade Buzzo, extraído do Jornal O Casulo)

domingo, 8 de novembro de 2009

devassidown


azul de oceania
infinito & invisível
(((((((((()))))()))))))
fumaça em círculos
((((((((((())))))()))))
cinzeiro yellow
de cinzas nicóticas
(((()((((((((((((((((((
certezas e finitudes
do pensamento
))))))))))))))))())))))
somente a arte nos
salva do abismo
))))(((())))(((())))((()
somente o abismo
nos preserva da
memória

(poema vermelho – lau siqueira, para o blog Poesia é Risco)

INFLUÊNCIAS AFETIVAS
Estive lendo uma matéria na revista Bravo 141 sobre uma edição das cartas que o poeta Mário de Andrade trocou com seu tio (na verdade casado com uma prima sua), Pio Lourenço Correa. É inegável a importância de alguns aspectos puramente afetivos na obra de qualquer artista. Mário costumava dizer que o sítio do seu “tio” Pio era a sua Pasárgada. Foi lá, por exemplo, que escreveu obras importantes como Macunaíma. Foi seu tio quem o acolheu na tristeza de ter perdido, precocemente, seu irmão. Enfim... Sentir é também criar. Criar é, sobretudo, sentir = pensar. O poeta pensa o que sente e sente o que pensa.

POESIA E PRECONCEITO
Existe poema racista? Acho que sim. Aliás, tenho certeza. Lembro de um poema de Mário Quintana, dizendo que as “negrinhas” quando tiravam a roupa pareciam ainda estar vestidas. Também um de Oswald de Andrade, escreveu algo que além de racista era homofóbico. Ele escreveu um poema chamado Boneca de Piche, supostamente dedicado ao Mário de Andrade. Um poema motivado pelas desconfianças que mantinha acerca da sexualidade do autor de Macunaíma e pela cor da sua pele. Feio isso, mas faz parte da história da literatura brasileira. Também Raquel de Queiroz fez um comentário infeliz: “Se Mário de Andrade tivesse assumido a sua homossexualidade, teria sido mais feliz.” Ora, quem disse que ele era infeliz?

MÁRIO DE ANDRADE
Admiro profundamente dois modernistas, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Mário, além de poeta maiúsculo, foi um grande pesquisador da Cultura Popular brasileira. Também foi o primeiro gestor de cultura do Brasil, idealizador do então Departamento de Cultura do Estado de São Paulo. Foi afastado por questões políticas, mas sua herança ainda pode ser percebida. Por exemplo, ele foi o precursor do que hoje é a política de preservação do patrimônio histórico e que resultou no IPHAN e IPHAEPs.

SALA DE AULA
Sou um cara com uma vaidade bastante “esquisotérica”, mas reconheço que algumas coisas me deixam com o riso nas orelhas. Por exemplo, nesta última sexta-feira estive com alunos do Departamento de Letras da UFPB que estão estudando meu livro, Texto Sentido, na cadeira de Teoria da Poesia. Foi um dos momentos mais agradáveis da minha vida de poeta, tenham certeza. Além da turma receptiva e simpática, descobri alguns poetas que vou reproduzindo aos poucos neste blog. Tiramos fotografias, autografamos livros, conversamos descontraidamente... Espero que tenham gostado. Eu adorei. Espero ter contribuído de alguma forma com a formação dessa meninada bacana.

INFLUÊNCIAS AFETIVAS II
Inevitavelmente sempre há quem nos dê a mão para ingressarmos nos processos criativos da Literatura. No meu caso, foi minha irmã, Leceni, hoje professora de Português e Literatura em uma escola pública de Cascavel-PR. Leceni me apresentou aos livros ainda na infância e, mais do que isso, ao prazer da leitura. Por isso, muito mais que poeta, graças a Zeus, sou um leitor de Poesia. Aliás, o leitor é muito mais importante que o escritor, conforme dizia Jorge Luiz Borges. O escritor faz o que pode já o leitor escolhe. O leitor é seletivo, o escritor, nem sempre.

POETAS DA SALA DE AULA
Mais do que o papo agradável com os alunos foi bacana ter descoberto o haikaista Felipe D’Castro e o poeta Alex Luiz Roque. Abaixo, com muito prazer, publico três haikais do Felipe e um poema do Alex. Tem mais gente escrevendo naquela turma, mas a timidez não permitiu o acesso. Espero que, pelo menos, por e-mail, tenham a gentileza de revelar seus dotes ao pobre do Lau Siqueira.

Olhar de verão.
No olho verde a aurora
Almejos de velhice.


(Felipe D’Castro)

Tempestade incessante
A aurora não surge.
Vida de inverno.


(Felipe D’Castro)

Dois de novembro
Do céu, chuva costumeira.
Dia anual do choro.


(Felipe D’Castro)

ESTAGNAÇÃO PELA FALA

.........no corpo da fala
A linguagem é chama que arde em silêncio
Num gesto tantas vezes cobiçado

.........de se conceder
A vingança pela palavra proferida
Em fábula infame numa estética arcaica

..........simplesmente muda
E teorizada à bala numa sílaba certeira.

(poema de Alex Luiz Roque)

PONTO FINAL
Concluo refletindo sobre a magnitude de reconhecer que esses meninos estão escrevendo melhor que muito marmanjo pretensioso que freqüenta a mídia por uma questão de circunstância. A Poesia, nossa musa preferida, sempre é bem maior que os poetas. Ah, antes que esqueça: o Ponto Final é um círculo... representa, pois, algo interminável.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

inconclusivo


vida
palavra que não
adjetiva

maiúscula ou minúscula
antes ou depois
da vírgula

viga icônica
dos sentidos

sopro que às vezes
dói

outras vezes libido
de pássaro

solamente

f
.....l
.........u
.............i


(poema vermelho – lau siqueira)

LUIZ FERNANDO PRÔA
O querido poeta Luiz Fernando Proa nos convida para caminhar pela Paz e contra a Hipocrisia, no próximo dia 8, domingo, às 14 horas, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Toda a nossa solidariedade ao amigo poeta! Luiz vive momentos tristes para todos nós e, certamente, a maior provação da sua vida. Seu filho, viciado em crack, matou uma amiga que queria apenas ajudá-lo. Essa marcha é de todos nós! Somos poetas de uma sociedade em guerra consigo mesma. Se alguém desejar receber a carta comovida, lúcida, doída, sobretudo sincera, do poeta Luiz Fernando Prôa convocando a manifestação, encaminhe o pedido para
lausiqueira@yahoo.com. Que esta luta seja de todos e todas nós.

55ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
Saiu a programação. Estarei dia 12, às 19h, no Armazém A1 do Cais do Porto, com Laís Chaffe, Edson Cruz e Estrela Ruiz Leminski no sarau Cidade Poema. Para conferir a programação completa, entre no link
http://www.feiradolivro-poa.com.br/programacao.php

POESIA E AS NOVAS MÍDIAS
Se estivesse pelo Rio, jamais deixaria de fazer esse curso oferecido pelo André Vallias. Maiores informações no site Pólo do Pensamento
www.polodepensamento.com.br Veja o programa: 10/11: Poesia Concreta. Ideograma, alfabeto fonético e a pós escrita; 17/11: Os primeiros poemas feitos em computador. Permutação, recursão e cibernética; 24/11: Do poema semiótico à poesia genética. A biologia da comunicação. 01/12: Nomadismo, oralidade e pluri-linguismo no espaço “ciberal”. Os bastidores de um poema interativo.

PAPOESIA
Já Faz algum tempo que as turmas de Letras da UFPB são apresentadas à minha “indigência poética” (como diria Francisco Carvalho). Tenho vendido livros (a preços popularíssimos) aos alunos. Dia 6 próximo, a convite do professor Amador Ribeiro Neto, também poeta, crítico e doutor em semiótica, vou encontrar as turmas, para um bom papoesia.

A POESIA DE JOSÉ MARTÍ

Tudo é formoso e constante,
Tudo é música e razão,
E tudo, até diamante,
Antes da luz, é carvão.

Sei que o néscio se enterra
Com grande luxo e pranto, -
Mas não há fruta na terra
Como a do campo santo.

Calo, entendo, e me dispo
Da pompa do rimador:
Penduro em arve sem viço
Minha cabeça beca de doutor.

(do livro Versos Singelos, do cubano José Martí traduzido pelo poeta gaúcho Sidnei Schneider. Deste livro surgiu a letra de uma das canções mais populares do mundo, Guantanamera.)