poemaginário



bebo minha memória num
punhado de palavras tristes

na desordem dispersa
duma sentença estranha

por isso tenho esse olhar
de ácido esmaecido

e um coração afeito ao riso

como se fosse o idílio
sob a lona de um circo


às vezes
simplesmente vomito

e finjo silêncios
no espasmo amargo
do grito



(lau siqueira – poemas vermelhos)


ROBERTO PIVA
Internado em São Paulo, no Hospital das Clínicas, o poeta Roberto Piva está precisando dos amigos. Tenho acompanhado a agonia de Piva pelo blog do meu querido poeta Ademir Assunção. É o primeiro link dos blogs aqui indicados pelo Poesia Sim. Ouso dizer que Piva é um dos mais importantes nomes da Poesia Brasileira de todos os tempos. Vamos ajudá-lo!

ESCREVER O POEMA
Penso que nada mais se pode esperar de um poema se não que ele se cumpra integralmente e que sua forma possua realmente um conteúdo imaginativo e sólido. Um poema é uma alegria triste. Uma tristeza que gargalha. Um poema é o álibi da falha. Navalha que se perde no espelho. Escrever poema é aprender e apreendê-lo nos olhos, nos braços, nos pentelhos... Quando escrevo um poema como este escrito acima, sinto que sou exatamente isso. E que por isso, não me basto. Basta!

JOÃO PESSOAS
Meu amigo Fernando Moura, jornalista, compositor e biógrafo de Jackson do Pandeiro vive tendo sacadas geniais. Certamente que uma delas é o projeto “João Pessoas – a memória da cidade”. Nesta última edição ele apresenta o artista plástico Flávio Tavares, o cantor Parrá e o carnavalesco Jocemar Chaves. São nomes que fazem a história da cidade de “João Pessoas”. (Eu moro em João Pessoas.) O projeto inventou um método democrático de escrever a memória da cidade. Muito bom!

TUITAGEM
O twitter tem o dom da tatuagem volúvel. As palavras imprimem uma imagem e somem imediatamente. Hoje eu disse coisas assim: “Sabe o que eu acho de Osama Bin Laden? Eu acho que ele não me acha”. “Bem... digamos que você saiba exatamente o que significa a palavra insignificância. Então, eu pergunto: e daí?”. Vou bobajar, para que o meu twitter não fique bobo.

UM POEMA DE JOHN DONNE


Onde, qual amofada sobre o leito,
Grávida areia inchou para apoiar
A inclinada cabeça da violeta.
Nós nos sentamos, olhar contra olhar.

Nossas mãos duramente cimentadas
No firme bálsamo que delas vem,
Nossas visitas trançadas e tecendo
Os olhos em um duplo filamento;

Enxertar mão em mão é até agora
Nossa única forma de atadura
E modelar nos olhos as figuras
A nossa única propagação.

Como entre dois exércitos iguais,
Na incerteza, o Acaso se suspende,
Nossas almas (dos corpos apartadas
Por antecipação) entre ambos pendem.

E enquanto alma com alma negocia,
Estátuas sepulcrais ali quedamos
Todo dia na mesma poesição,
Sem mínima palavra, todo dia.

Se alguém – pelo amor tão refinado
Que entendesse das almas a linguagem,
E por virtude desse amor tornado
Só pensamento – a elas chegasse,

Pudera (sem saber que alma falava
Pois ambas eram uma só palavra),
Nova sublimação tomar do instante
E retornar mais puro que antes.

Nosso Êxtase – dizemos – nos dá nexo
E nos mostra do amor o objetivo,
Vemos agora que não foi o sexo
Vemos que não soubemos o motivo.

Mas que assim como as almas são misturas
Ignoradas, o amor reamalgama
A misturada alma de quem ama,
Compondo duas numa e uma em duas.

Transplanta a violeta solitária:
A força, a cor, a forma, tudo o que era
Até aqui degenerado e raro
Ora se multiplica e regenera,

Pois quando o amor assim uma na outra
Interinanimou duas almas,
A alma melhor que dessas duas brota
A magra solidão derrota,

E nós que somos essa alma jovem,
Nossa composição já conhecemos
Por isto: os átomos de que nascemos
São almas que não mais se movem.

Mas que distância e distração as nossas!
Aos corpos não convém fazermos guerra:
Não sendo nós, são nossos. Nós as
Inteligências, eles as esferas.

Ao contrário, devemos ser-lhes gratas
Por nos (a nós) haverem atraído,
Emprestando-nos forças e sentidos:
Escória, não, mas liga que nos ata.

A influência dos céus em nós atua
Só depois de se ter impresso no ar.
Também é lei de amor que alma não flua
Em alma sem os corpos transpassar.

Com o sangue trabalha para dar
Espíritos, que às almas são conformes.
Pois tais dedos carecem de apertar
Esse invisível nó que nos faz homens.

Assim as almas dos amantes devem
Descer às afeições e às faculdades
Que os sentidos atingem e percebem,
Senão um príncipe jaz aprisionado.

Aos corpos, finalmente, retornemos,
Descortinando o amor à toda gente;
Os mistérios do amor, a alma os sente,
Porém o corpo é para as páginas que lemos.

Se alguém – amante como nós – tiver
Esse diálogo a um ouvido a ambos,
Que observe ainda e não verá qualquer
Mudança quando aos corpos nos mudamos.

(O êxtase, poema do norte-americano John Donne, 1573-1631. Tradução de Augusto de Campos)

ERRATA: Agradeço profundamente ao poeta e amigo Joedson, pela oportuna correção (nos comentários). John Donne nunca foi americano e pelo jeito, nunca será. Donne foi um poeta inglês da gema, pastor anglicano e um legítimo representante dos poetas metafísicos. Desculpem! Gracias, Joedson!

Comentários

ode aos deuses disse…
John Jonne é, mesmo depois de tanto tempo, inglês
abraços
líria porto disse…
vez por outra venho te ver, te reler - e só encontro pérolas!
obrigada pelo doce de_leite!

(mas dói a dor do poeta roberto piva!)

besos
Leda Lucas disse…
Nossa, Lau!
Estive na casa de Pablo Neruda, em Isla Negra, no Chile e, além de visitar a casa com a exposição (organizada) da alma do poeta, quedei-me um pouco junto ao túmulo onde estão o poeta e um de seus grandes amores, Matilde.
Não sei se você já foi lá! Os corpos foram sepultados segundo o desejo do poeta, em uma única tumba e disposta de frente para o oceano Pacífico.
Este poema de John Donne lembrou-me meus sentimentos ali, àquela hora visando o mar.
Leda
Luciana Marinho disse…
"Transplanta a violeta solitária:
A força, a cor, a forma, tudo o que era
Até aqui degenerado e raro
Ora se multiplica e regenera.."

que belo!

tuas escolhas nos convidam a grandes aventuras poéticas =)

amei todo o post.

beijoca, lau.
lau siqueira disse…
´Joedson, muito obrigado. Ao invés de corrigir, coloquei uma errata lá. Líria, obridado sempre pelo carinho. Leda, nunca estive. Pois é, J.Donne tem essa coisa bem erótica, mas de um erótico como um extremo afetivo. Nunca fui lá... e acho que nem vou.
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliana Lira disse…
Lau

Então somos dois que moramos na Paraíba!Gostei muito daqui

Milhões de beijos
Deliane Leite disse…
Olá sou nova no pedaço. Me chamo Deliane e achei seu blog no da Hercília. Gostei muito da proposta Lau. Sou poeta, faço parte do grupo cultural Tribo das Artes de Brasília-DF (sim, temos movimentos culturais, manifestações populares por aqui....) e do Grupo Vivoverso (grupo de pesquisa em poesia contemporânea da Universidade de Brasília. Me preparo para publicar meu 1o. livro e gostaria de apresentar-lhe o Geografia do Desejo.
Muito prazer...
Forte abraço!
Esp
Bruna Mitrano disse…
É perturbador passar por aqui. Por isso venho sempre.
Ouvi dizer que Piva está melhor, espero que seja verdade.
Analuka disse…
Passeando por aqui, para beber a poesia destas paragens, e deixar meu beijo pintado-alado para ti, poeta Lau de alma lunar!

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