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Mostrando postagens de Fevereiro, 2010
curicacas


até que
as palavras
virem lágrimas
de estranho
significado

eu sangro versos
com o que inflama
e o que sufoca

minhas asas
curicacas
no ar

(lau siqueira – poema vermelho)

POUND’ERANDO
Escrever poemas é como apontar um estilingue para uma cristaleira cheia de porcelana chinesa e cristais raros. O alvo mínimo, quase invisível, seria uma borracha com o diâmetro de uma bola de gude. O perigo, portanto, de você cometer uma grande bobagem é real. A poesia é sempre um risco absurdo e a possibilidade de um alvo quase invisível.

VASKO POPA
Ontem comprei o livro Osso a Osso, do poeta Iugoslavo Vasko Popa. Ninguém menos que Octavio Paz escreve o prólogo do livro. Aliás, o “imprólogo”. Paz faz reverências ao poeta Iogoslavo, num poema longo. Veja: “(...) Não um prólogo,/ mereces um poema épico,/ um romance de aventuras seriado. Digam o que quiserem os críticos não te pareces com Kafka o diapéptico nem com o anêmico Becket./ Vens do poema de Ariosto, sais de um conto grotesco de Ramón./ És uma estória con…
berimbau de lua


antes que tudo
fuja aos meus pés
vou caminhando

isento das alegrias
fúteis e das tristezas
dispensáveis

vou como um bárbaro
mirando a lua

viajante do tempo
na beira de um açude
de coisas ocultas

caminho como quem
sabe das bifurcações
e dos disfarces

com medo do que
não amedronta
mais

(poema do livro, ainda inédito, Poesia Sem Pele. Lau Siqueira)


SOBRE MEU ÚLTIMO LIVRO
“Está na cara, em cada página. Quando se é poeta, é e pronto. Sem teses, sem tribos, sem rótulos. O que o seu livro é, incontestável: trabalho consciente com a linguagem. O que não é: plataforma de estéreis discussões. O leitor pode ter cem olhos ou pode ser míope, pode enxergar uma paisagem ou uma fechadura. Mas o livro está aí. E Lau traz abertamente um diálogo com seus viventes, seu jeito de mirar e acertar o alvo. Quintana, Leminski, Bashô, Augusto, Ginsberg, Pessoa. Como um cubo mágico, o que se gira cria outros problemas, sugere outras infinitas soluções.” (por André Ricardo Aguiar, 2007)

CHAPADÃO DO CÉU
Daqui a po…
razão
nenhuma




o que escrevo
é apenas parte
do que sinto

a outra parte
finjo que minto

e acredito

(do livro Sem Meias Palavras, 2002. lau siqueira)

POESIA E INTERNET
Até bem pouco tempo a poesia brasileira contemporânea era reconhecida apenas no eixo Rio/Sampa. Era uma representação de poetas da região ou poetas radicados por lá, apenas. Qualquer antologia brasileira, principalmente nos anos 90, no máximo incluía alguém do Paraná, Rio Grande do Sul ou Minas. Uma mentalidade de imperialismo futebolístico, absorvida e difundida pela academia e pela mídia do centro do país. Todavia, a internet e suas redes sociais derrubaram essas muralhas. Hoje, se não há ainda o pleno reconhecimento que existe poesia de qualidade fora dos eixos mais badalados, pelo menos há uma grande desconfiança.

nuavestido rosado
detalhe infame
no decote

sua fotografia
me atravessa
neste momento

perdido entre
a eternidade
o esquecimento

(poema vermelho – lau siqueira)

POESIA E INTERNET - I
Talvez o grande poeta brasileiro do século XXI e…
blindagem


vivo neste redemoinho
como um cogumelo de ondas
invisíveis sobre a areia

um nada que se avoluma
cada vez que domino a palavra
como amante que permanece
esguio diante do amor

começo a tecer meus rios
paralelos como os rios que
em mim permanecem

cálidos e correntes como um
certo expressionismo curdo

(uma vez vencido sou outro)


(lau siqueira – do livro texto sentido)

EXPLICAR O POEMA
Num desses dias passados, certo ser poético, habitante aqui do blog, declarou gostar de alguns dos meus poemas e pediu para explicar um em particular. O título do poema é Devasidown e está num dos posts abaixo, em letras garrafais. Explicar o poema? Na verdade esse habitante me deixou no compromisso de buscar uma resposta coerente para o seu lúcido questionamento. A resposta que encontrei em Jorge Luiz Borges: “Suspeitei muitas vezes que o sentido é, na verdade, algo acrescentado ao verso. Tenho plena convicção que sentimos a beleza de um poema antes mesmo de começarmos a pensar num sentido.”

deuslumbrado


vivo cada…