berimbau de lua


antes que tudo
fuja aos meus pés
vou caminhando

isento das alegrias
fúteis e das tristezas
dispensáveis

vou como um bárbaro
mirando a lua

viajante do tempo
na beira de um açude
de coisas ocultas

caminho como quem
sabe das bifurcações
e dos disfarces

com medo do que
não amedronta
mais

(poema do livro, ainda inédito, Poesia Sem Pele. Lau Siqueira)


SOBRE MEU ÚLTIMO LIVRO
“Está na cara, em cada página. Quando se é poeta, é e pronto. Sem teses, sem tribos, sem rótulos. O que o seu livro é, incontestável: trabalho consciente com a linguagem. O que não é: plataforma de estéreis discussões. O leitor pode ter cem olhos ou pode ser míope, pode enxergar uma paisagem ou uma fechadura. Mas o livro está aí. E Lau traz abertamente um diálogo com seus viventes, seu jeito de mirar e acertar o alvo. Quintana, Leminski, Bashô, Augusto, Ginsberg, Pessoa. Como um cubo mágico, o que se gira cria outros problemas, sugere outras infinitas soluções.” (por André Ricardo Aguiar, 2007)

CHAPADÃO DO CÉU
Daqui a pouco estarei rumando para Chapadão do Céu, no Parque Nacional das Emas, interior de Goiás. Uma cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, onde está residindo minha filha e minha neta. Quero ver como é que funciona o carnaval no cerrado, longe das referências espetaculosas dos grandes centros. Depois eu conto, ok?

POEMA COMENTADO

eu não sei medir
o tempo

meu pai me deu esse olho de pássaro

pra mim
o tempo
voa

"Olho de Pássaro", poema de Mariana Botelho! Um poema que carrega a imensidão da qual a poesia se nutre. Nos dois primeiros e mínimos versos, estende a compreensão do homem sobre o mundo a uma condição de desprezo pelo que é sólido e se desmancha no ar. No terceiro e mais longo verso aborda o resgate da raiz, na condução da vida em direção à linguagem e da linguagem em direção aos seus próprios recursos. No mini-terceto final, Mariana perpetua o insólito. É como se o poema cumprisse definitivamente a sina de explicar o inexplicável, de traçar no imaginário do leitor algum tipo de flutuação epidérmica. Coisa como o ar carregando um corpo através das forças inexplicáveis que regem, ao mesmo tempo, a natureza da linguagem e a natureza humana. Poema de profundo tear filosófico que precisa ser lido sim, duas , três, dez vezes... Sempre com muita atenção para sua beleza e delicadeza; densidade e leveza em profundo mergulho.

Comentários

Nydia Bonetti disse…
"Sem teses, sem tribos, sem rótulos." Adoro isso, Lau!

Também gosto demais da poesia da Mariana Botelho.

Abço.
Sidnei Schneider disse…
Lau, bonito poema. E que capacidade de botar título, Berimbau de lua, nossa! Agradeço, também, a citação outro dia. Abraço grande
Marcelo Novaes disse…
Lau,




O berimbau projeta sua sombra arcada, soando seus muitos matizes numa só corda: recursos sutis em estrutura minimalista.




Mariana Botelho também enxuga o quanto pode [procura ser minimalista: assim concebe seu melhor talhe], ainda quando trans-borda [ou se derrama].



[Por saber das bifurcações e disfarces, há de se ter medo de tê-lo perdido. Eis onde mora o perigo...]








Abração.
Rodrigo Braga disse…
Sensacional!!! Gosto da fuga do óbvio e sua poesia tem essa característica. Sem rimas desnecessárias, mas com ritmo.

Nossa...Parabéns!!!
Lice Soares disse…
Muito bom o teu espaço. Parabéns.
Foi um prazer estar aqui.
Carito disse…
Lau sem rimo, rumo ao rômulo e remo, aqui sempre mais, onde desaguam, terras, outras terras...
Pedra do Sertão disse…
Delicadeza do poema de Mariana Botelho e sutileza no Berimbau da lua. Muito bons!

Abraço e obrigada pelo convite.

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