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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

curicacas


até que
as palavras
virem lágrimas
de estranho
significado

eu sangro versos
com o que inflama
e o que sufoca

minhas asas
curicacas
no ar

(lau siqueira – poema vermelho)

POUND’ERANDO
Escrever poemas é como apontar um estilingue para uma cristaleira cheia de porcelana chinesa e cristais raros. O alvo mínimo, quase invisível, seria uma borracha com o diâmetro de uma bola de gude. O perigo, portanto, de você cometer uma grande bobagem é real. A poesia é sempre um risco absurdo e a possibilidade de um alvo quase invisível.

VASKO POPA
Ontem comprei o livro Osso a Osso, do poeta Iugoslavo Vasko Popa. Ninguém menos que Octavio Paz escreve o prólogo do livro. Aliás, o “imprólogo”. Paz faz reverências ao poeta Iogoslavo, num poema longo. Veja: “(...) Não um prólogo,/ mereces um poema épico,/ um romance de aventuras seriado. Digam o que quiserem os críticos não te pareces com Kafka o diapéptico nem com o anêmico Becket./ Vens do poema de Ariosto, sais de um conto grotesco de Ramón./ És uma estória contada por uma avó, / uma inscrição sobre uma pedra tombada, / um desenho e um nome sobre uma parede.” Um belo poema como prólgo de um belo livro do poeta Iugoslavo.

DE VOLTA AO COMEÇO
Depois de uma viagem afetiva ao interior de Goiás, tento retornar aos afazeres diários. A viagem foi colorida. Fui pela empresa Azul. Já na fila do Guararapes, fiquei amarelo de tanta espera. Vermelho de raiva foi quando descobri que minha conexão em Campinas demoraria mais de seis horas. Queria dizer mais, mas deu um branco. No mais foi só alegria. Família é tudo de bom.

UM POEMA DE VASKO POPA

Há muito sumiu
A primeira bancura

As rugas do tempo
Transbordam
Sobre o fértil baldio

Campo desamado

Figuras vazias
Revestidas
De surpresa-lã

Jogo desjogado

Fartura centopéica
Sobre a eterna pastagem

(Na Parede, poema do iugoslavo Vasko Popa, do livro Osso a Osso, publocado pela Editora Perspectiva em co-edição com a USP. Tradução e organização de notas de Aleksandar Jovanovic. Segundo Haroldo de Campos, Vasko Popa é “um dos maiores poetas da Iugoslávia e figura marcante no cenário poético internacional.”)

9 comentários:

susannah disse...

no começo sempre meço
aquilo que no fim
desmereço

Sua breve narrativa de retorno, de idas coloridas e vindas recentes, me fez pensar nesses começos que retornam e que ao fim se desmancham. Muita expectativa depositada no primeiro passo. Relaxei, meu amigo. E relaxada, nesta segunda, recomeço.

dade amorim disse...

Pound é certeiro, Popa uma grata surpresa, tua viagem um arco-íris e teu poema "ave ciconiiforme da fam. dos tresquiornitídeos", que é quem dá voo às palavras.

Beijo

Nicotina Magazine disse...

http://nicotinamagazine.net/noticias.php?id=52

A Nicotina Magazine e a Nicotina Editores estão a preparar o lançamento de um nova antologia de poesia contemporânea portuguesa, de nome «poetas sem medo». Os interessados podem consultar aqui o regulamento de inscrição, enviando por mail os seus poemas. As inscrições estão abertas durante os próximos meses. Esta iniciativa visa ajudar a Fundação Santo António Maria Claret, uma fundação com um papel fundamental no apoio à infância, 3.ª idade, e cidadãos portadores de deficiência.

Leo Lobos disse...

Mis saludos desde Santiago de Chile
Un agrado pasar a leer y mirar su espacio de cultura

Leo Lobos

Gerana Damulakis disse...

Também gosto de Vasko Popa.
Aplaudo seu poema.

adazani disse...

Caro Lau,
Nm tem a ve com o tóico, mas não quis enviar um e-mail. Gosto muito de um autor, Guy Debord, que escreveu o nunca ultrapassado "A Sociedade do Espetáculo".
Hoje, lendo sobre ele, vi esse trecho que me lembrou você:

"Mas Debord (1931-1994) não é apenas um dos poucos autores de inspiração marxista que hoje podem dar uma contribuição válida para a análise do capitalismo globalizado e pós-moderno. Ele também fascina por sua vida singular, sem compromissos e conforme as suas teorias.

A busca da aventura e da vida “verdadeira” esteve na base de sua vida pessoal - da qual a sua autobiografia Panegírico e os seus filmes falam -, assim como de sua teoria. Levou uma existência intencionalmente “maldita”, às margens da sociedade, sem um trabalho reconhecido, sem nenhum contato com as instituições, sem nunca ter freqüentado uma universidade, concedido uma entrevista ou participado de um congresso e, no entanto, conseguiu fazer com que fosse ouvido.

Levou adiante a sua batalha contra a sociedade espetacular exclusivamente com os meios que ele próprio criou para si: em primeiro lugar, com a Internacional Situacionista, uma pequena organização que existiu entre 1957 e 1972 e que se originou da decomposição do surrealismo parisiense e de outras experiências artísticas. Com a revista homônima e novos meios de agitação (quadrinhos, organização de escândalos), os situacionistas souberam prefigurar, muito melhor do que a esquerda “política”, as novas linhas de conflito na sociedade “da abundância”.

(Anselm Jappen em resenha para o caderno "Mais" da Folha de São Paulo em 1997.
Tá aí!
Beijos,
Ada

(em tempo: desculpe-me pelo "te ligo 'afobada' e deixo confusões no gravador" rss..
e obrigada pelo carinho e gentileza em me ouvir)

Andrehfortes disse...

adorei o blog
Parabéns
abraço

elisa disse...

lau, tudo bem? te escrevi sobre o teu livro que recebi, mas o email voltou (hotmail). poderia me passar outro contato?
obrigada!

marilda confortin disse...

Pois é, Lau. Você pound´era com muita propriedade. Aquela imagem da cristaleira não me sai da cabeça. Passo horas passeando por aqui. É pura poesia, sim.
Beijo