diálogo do espanto





mergulhado no hálito
das coisas fugidias


salivando palavras
proscritas nas


híbridas paisagens
no renitente azul das

cumeeiras encardidas

de vento e silício

fecho meu corpo

fecho minha casa

movimento a sombra

decaída dos ombros

instrumentos que sobram
abraçados pela estupidez


e pelo espanto


(lau siqueira – poemas vermelhos)


POESIA SEM PELE
Talvez meu próximo livro (Poesia Sem Pele) fique pronto até o final do ano. Na verdade, continuo experimentando, escrevendo, perdendo poemas. Sobretudo exercitando permanentemente o manejo do sabre na luta armada da palavra. A insônia favorece o abraço das horas perdidas. Horas vividas na pulsação do que permanece íntegro enquanto se transforma. Acho que o livro nascerá dessa experiência de supremas alegrias e tristezas contundentes. Afinal, a poesia é também um fator humano. Na verdade, um experimento da existência. Na verdade, existir é um mix de linguagens.


POESIA SEM PELE I
O processo é mais ou menos esse: o equivalente a rupturas permanentes na busca de uma noção exata do oco e seus verbos absolutos. Os poemas de Poesia Sem Pele nascem de leituras atentas e desatentas de bons livros e bons vinhos. Leituras da própria vida e seus espasmos. Vou tratando a palavra na segunda pessoa, com intimidade de quem a deseja esplendidamente nua. Somente a nudez da palavra pode vestir um poema. Por isso, busco insaciavelmente a poesia sem pele. A carne viva, a sangria... a expressão da extrema sensibilidade exposta ao vento.


solfejo de ícaros




olhos cravados no futuro
percebo o mundo


na eternidade de um
relâmpago


guardo em mim
a imagem de alguns rios
e também seus afluentes


sou como o que escoa
e o que irriga


o que parte quando fica




(poema vermelho – lau siqueira)






ESCREVER UM LIVRO
Nunca tive muita vontade de publicar um livro. Meio que ao acaso, aos 36 anos, publiquei O Comício das Veias, poemas meus e contos de Joana Belarmino, com quem eu era casado na época. Os demais, no entanto, forasm chegando como que vestidos de uma necessidade estranha. Quase um vômito da produção de um determinado período. Para mim, escrever sempre foi muito mais nobre que publicar, assim como ler sempre foi mais necessário que os outros dois motivos juntos. No entanto, na vida de um escritor isso tudo vem pulsando, pulsando... até que explode.






TEORIA DA POESIA
Estava eu aqui lendo “Teoria da Literatura”, de Roberto Acízelo de Sousa (Editora Ática) e cada vez mais me convencendo que a Teoria da Poesia, cada vez mais, vem sendo carregada para dentro do poema. É como se cada poema trouxesse em si mesmo uma teoria única e inabalável. Na verdade, o que se sente é que o ensino da Teoria da Literatura e, mais particularmente, da Teoria da Poesia, cada vez mais se afasta das análises historicistas com pretensões científicas e recorre a profusão de possibilidades na análise de cada poema.

Comentários

susannah disse…
Vc é o que parte qd fica ao sabor da eternidade de um relâmpago, saboreando na viagem as agudas ditas das palavras? Desnudando cada uma até a pele descarnar-se de seu pejo e revelar-se uma proscrita? Vc já adiantou muito do seu projeto nos poemas vermelhos. Na pele das palavras, a pele do poeta... sem pele, nu como a poesia, pronta pra devorá-lo a cada final de verso. E não é assim? Sempre? Sentir-se devorado por ela a cada vez que a escreve? Proscrito é o poeta a cada viagem sob a pele das palavras.
Um beijo nelas!
Olá, meu caro, gostei de seus poemas. Li os deste post e de alguns outros e gostei. Voltarei mais vezes. Visite o meu, se quiser: www.rodrigoepoesia.blogspot.com, é de poesia, contos e crônicas.
Abraço,
Rodrigo
Marina disse…
gostei tbm lindos poemas sempre estarei aqui visitando
Ludmylla disse…
adorei "Olhos cravados no futuro percebo o mundo na eternidade de um relampago"

maravilhoso!

se puder me visite no meu blog também, ótimo fim de semana. Beijos
O mundo visto dos olhos de um perceptivo observador por natureza, busca interpretar de fato estando dentro do tempo que se apreende, por ser talento se coloca de fora do mundo, percebendo muito, às vezes mais do que se quer, em lampejos de segundos. - É o que sinto dos seus textos. Volta e meia passo por aqui para compartilhar impressões.

Postagens mais visitadas deste blog