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segunda-feira, 1 de março de 2010

teia







então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas
como uma sombra entre sombras



sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano
apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma



perdi o que
não era essência



e agora
pleno de mim
não sei nem sou



(poema do livro texto sentido – lau siqueira)


MUNDO CIRCUNDANTE
Reproduzo aqui o comentário do poeta e crítico pernambucano, Luiz Carlos Monteiro, sobre o poema Teia, publicado no meu quarto livro (http://omundocircundante.blogspot.com/): “Lau Siqueira é poeta nascido em Jaguarão (RS), mas vive em João Pessoa (PB) desde 1985. Do seu quarto livro, Texto sentido, retiramos o poema “Teia” que fala na mudança e no aprendizado de vida do poeta. Ele assume a atitude de quem retorna da viagem dos primeiros anos de juventude para o choque da vida cotidiana. Não aponta mais caminhos nem busca soluções políticas e existenciais datadas, voltando-se apenas para “o círculo visceral da existência”. Admite também que viveu uma espécie de loucura leve e sem decadência, o medo e a superficialidade que não incluía “a lapidação da alma”. A essência, agora, configura-se na vida em si, na radicalidade de sentir-se humano e frágil, atento e predisposto às vicissitudes e desencontros, contudo humilde e corajoso o suficiente para reconhecer que “pleno de [si] mim/ não sei [sabe] nem sou [é]”.

SEGUIR EM FRENTE
Não há modelo para uma vida minimamente saudável na doentia sociedade neste início de milênio. Por isso, a única saída é seguir em frente. Que a vida seja semeada por aí. Até que nada mais contenha a nossa tristeza e a alegria passe pelo eco de um ponto final. Resistir é preciso, sempre. Construir uma manhã repartida... e que os nossos sonhos nos ajudem a transgredir a realidade.

POESIA SEM PELE
Estou planejando concluir o meu livro, Poesia Sem Pele, lá para o final do ano. Espero conseguir escrever poemas que signifiquem coisa nenhuma, mas que se constituam em belos engenhos de signos. Concebo a Poesia como uma arte de encarar distâncias e abismos, sem medo de caminhar, sem medo de mergulhar...

ESCREVIVÊNCIAS
Escrever poemas é quase que uma despedida. A todo instante o verso é desfeito. Se não em troca sumária de palavras, em flutuações do significado. A poesia pulsa, também, na circunstância do poeta. A poesia não é o poeta. Nem só um jogo de palavras lapidadas pelo olhar rigoroso de quem busca a essência. O poeta é o que se deixa transgredir pelos lírios e pelo arremesso de um olhar abismal.


A POESIA DE VASKO POPA



Alguém me abraça

Alguém me fita com olhos de lobo

Alguém tira o chapéu

Para que eu o veja melhor



Todos me perguntam

Você sabe quem eu sou



Velhotes e velhotas desconhecidos

Apoderam-se dos nomes

De rapazes e garotas de minha lembrança



Pergunto a um deles

Se ainda está vivo o rico

Gueórguie Kúria



Eu sou ele responde-me

Com voz de outro mundo



Acaricio-lhe a face

E com os olhos peço que me diga

Se eu estiou vivo ainda



(Na aldeia dos ancestrais, mais um poema de Vasko Popa, poeta da Iugoslávia. Tradução de Aleksandar Jovanovíc. Edição Perspectiva/USP)

7 comentários:

Batom e poesias disse...

Lau
De tudo o que aprendi nesse espaço de tempo lendo essa sua postagem (afora o poema belíssimo que eu já conhecia do seu livro), registrei frases muito sérias, que levarei como preciosidades:

"Até que nada mais contenha a nossa tristeza e a alegria passe pelo eco de um ponto final."

"Concebo a Poesia como uma arte de encarar distâncias e abismos, sem medo de caminhar, sem medo de mergulhar..."

"A poesia não é o poeta".

"O poeta é o que se deixa transgredir pelos lírios e pelo arremesso de um olhar abismal".

Um beijo no coração
Rossana

susannah disse...

Escrever é uma espécie de despedida... Muito certo isso! E tb: uma espécie de retorno ao que não era antes... Uma viagem nos meandros quase insólitos da palavra que desdiz tudo aquilo que dissemos uma vez, certos de tudo e confessadamente cheios de si! No mais, vamos caminhando nesse remanço "até que / as palavras / virem lágrimas / de estranho / significado". Hoje a lua diz "Lau"...
Bjs!

Luyse disse...

Só aqui a gente te encontra, né?
Amo.

Anônimo disse...

DESDE ARGENTINA, EN PATAGONIA, MUCHAS GRACIAS POR EL CONTACTO, EL BLOG, LA POESIA.
UN ABRAZO,

SILVIA IGLESIAS

WWW.SILVIAIGLESIAS.COM

Simonetta disse...

Construir uma manhã repartida... e que os nossos sonhos nos ajudem a transgredir a realidade.

é isso.
boa noite
bom dia

obrigada.

Nydia Bonetti disse...

Que beleza esta teia, Lau. Sempre tão bom te ler.

waykyrulitera disse...

Conheci sua poética por indicação de nydia bonetti, não estava errada, vc é muito denso, profundo, tocante. Teu tom é de uma grande esperteza lírica, simplesmente eu amei teu canto pós-moderno( avant-gard )!