terça-feira, 20 de abril de 2010

cometa







a noite
consome
o tempo
em estrelas
e pedaços
imensos
dum
desabitado
infinito


a noite
solfeja as
paredes
de um
silêncio
impreciso
e pálido


como
o hálito
fálico
dum risco
quebradiço
cortando
o céu

(lau siqueira – poema vermelho)


O CORTE DO VERSO
Nunca sei quando o corte determina o verso. Algumas vezes, apenas invento um precipício para a palavra que desmorona aos poucos, no eco do significado. Nunca a medida é exata, no entanto. Sempre o corte deixa no verso a imprecisão necessária aos olhares difusos. Da forma como são inexatas as folhas de uma árvore. Meu verso nunca estabelece as medidas. De certa forma, as despreza. O ritmo nunca estabelece o verso. Não há medida para o que se compõe no rastro do infinito, do incompreensível, do inexplicável, do imponderável... O corte do verso, algumas vezes, apenas sangra.

APOESIA COMO ESCUDO
Uso a poesia como se usa um escudo. Uma couraça que me protege de lanças invisíveis. Jamais nego esta sagrada estupidez. É como se fosse a pele da minha alma. A poesia me cerca de cuidados quanto aos que tramitam na pele do escárnio. Os estúpidos, os medíocres, os hipócritas, os descompromissados com a vida enquanto ato de partilha. Como se não fôssemos além do desmantelo que cadencia nossos passos, pausadamente... Como quem determina a própria morte. Morrendo aos poucos por dentro. Mordendo-se aos poucos, olho por olho, dente por dente.

DA HIPOCRISIA
Algumas pessoas navegam na pobreza espiritual de ser docemente hipócritas. Gentis, prestativas, servis... No entanto, agem nas sombras. Chafurdam como os ratos no esgoto. Delimitam o espaço das próprias vantagens. Algumas vezes misturam seus cotovelos podres a um cotidiano imundo. E sorriem, como se a miséria não começasse exatamente na escuridão do espírito. Como diria Chico Buarque: “Mirem-se no exemplo, daquelas mulheres, de Atenas...”

A ÉTICA E A VERDADE
Os valores éticos, para algumas pessoas, se transformaram numa gosma. Alguma coisa que se molda feito massa de modelar. No entanto, pela sua natureza disforme e pegajosa, jamais desgruda dos dedos de quem a manipula. Para algumas pessoas a ética não se conjuga com a verdade. Pertence a um gênero retórico, onde os interesses absolutamente pessoais submetem as convicções aos interesses imediatos e os princípios a... Que princípios?

ALANA AGRA
No dia 21 de março, Dia Internacional da Poesia, completei 53 anos muito bem vividos e sonhados. Comemorei muito intimamente porque algo tão precioso, como a vida, merece uma intimidade muito seleta. Sem platéias! Cercado da ternura das minhas filhas, da minha neta e de raros e imensos amigos e amigas. Algumas pessoas, de longe, também demonstraram um afeto que sempre me comove. Uma delas, foi a minha querida amiga, pediatra em Campina Grande-PB, Alana Agra. Dela recebi um presente precioso que já começo a degustar. Falo de um belo e único volume da Poesia Completa do Poeta Mário Quintana. Agradeço com as minhas melhores emoções. Alana é uma amiga que soube se guardar no meu coração. Em nome de Alana, meu carinho a todos os amigos e amigas que sabem da imensidão do significado desta palavra.

POEMA DE MÁRIO QUINTANA

A Eternidade está dormindo: o seu segredo é esse: por isso nunca morre...
Às vezes sonha as guerras, pesadelos que vivemos no tempo.
E como o tempo não tem tempo nem para folhear o álbum de família, tudo pode acontecer: Tarmelão, Alexandre, Hitler... E nós sempre vamos na onda, pois nunca ninguém pôde adivinhar o novo pseudônimo do Papão do Mundo. Nunca se sabe...
O que vai ser, meu Deus?!
Serão as multinacionais, os Emirados Árabes, os lions Clubes, a solerte infiltração das múltiplas religiões asiáticas? Pois já disse o Diabo certa vez, na Bíblia: “o meu nome é Legião.”
Portanto, poeta, não te filies a nada, muito menos às escolas poéticas. Evita, principalmente, as academias de letras, tanto as provincianas como a academia-mãe: nunca se sabe...
Faz no teu cantinho o teu poeminho. Esse absurdo de sempre existirem poetas apesar de tudo – deve significar alguma coisa...
Deve ser o fio de vida que vai unindo, pedaço a pedaço, essa colcha de retalhos que é a história do mundo.

(A Eternidade está dormindo, do poeta gaúcho Mário Quintana. Do livro Mário Quintana, poesia completa, volume único. Publicado em bela edição de 1009 páginas pela Editora Nova Aguilar-RJ, em 2006)

2 comentários:

susannah disse...

Todo corpo tem ritmo, movimento, intensidade, intervalo, hesitação. Assim o verso, corpo que se apronta de pronto, sem darmos conta dele e que vem como ritmo, ditado pelas palavras e pelos acentos, pelo som dos fonemas, que repetem em abertos e fechados, tal qual uma orquestra; vem com a imagem atrelada, encravada em cada pedacinho de palavra-som-movimento. Todo corpo traz o seu corte e sua sorte para o verso perverter-se em ritmo modulado no corpo de quem lê.

Bjs!

Luciana disse...

ótimo blog!