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terça-feira, 27 de abril de 2010

grafite







morrer é quase
um imprevisto


morro sempre
quando penso
que não existo

(Lau Siqueira, do livro Sem Meias Palavras, 2002, Ed. Idéia)

RANGER OS DENTES
Meus dias andam reflexivos demais. Pensar sobre tudo e não desperdiçar um único momento tem sido meu (di)lema. Talvez tenha sido assim a vida inteira e imensa, mas a verdade é que venho medindo minhas horas perdidas. A vida que se apresenta, algumas vezes, com rigidez de pedra, comunga com a ternura.  É como se a vida não me permitisse perder um único instante de poesia. Mesmo quando a rigidez dos ossos e da palavra, fazem ranger os dentes e os versos.

HUMANOS
Sábado passado estive reunido com alguns alunos e um professor, num projeto de extensão em um bairro periférico de João Pessoa. Fiquei um pouco assustado pela forma como a academia sustenta equívocos históricos. Equívocos de transcrever e perseguir realidades urbanas eivadas de vícios, na sustentação de análises superficiais. As pessoas em estado vulneráveis de vida precisam deixar de ser meros objetos de estudo. Fazer junto, pensar junto, compartilhar a dureza cotidiana de implementar os processos naturais da vida... parece que isso não corresponde a realidade dos nossos (dis)pensadores revolucionários. Fiquei assustado com o distanciamento humano e com a irrealidade de um tipo de saber acadêmico que em momento algum reconhece o saber popular.

HÉLIO OITICICA
Um dos mais instigantes criadores brasileiros, Hélio Oiticica, foi contemplado com duas publicações pelo Itaú Cultural. Uma delas, “A Pureza é Um Mito” (http://issuu.com/itaucultural/docs/oiticica) e Cosmogolé (cujo endereço não tenho ainda). O Itaú Cultural disponibiliza um acervo digitalizado do artista, neste endereço: http://issuu.com/itaucultural/docs/oiticica 

POEMA DE VASKO POPA




Depois da leitura de poemas
No serão literário da fábrica
Começa o diálogo


Um ouvinte ruivo
De face marcada por manchas solares
Ergue dois dedos


Camaradas poetas
Se eu lhes verificasse
Toda a minha vida
O papel ficaria rubro


E pegaria fogo

(Crítica da Poesia, poema do iugoslavo Vasko Popa, Ed. Perspectiva/USP, tradução e organização de Aleksandar Jovanovic)

3 comentários:

INFETO disse...

Rabiscos na cabeça meu caro, ate que um dia possamos finalmente passar tudo isso a limpo, para então pensarmos que podemos descansar e um novo rabisco nos azuar. Abraços

http://poesiafotocritica.blogspot.com

Renata de Aragão Lopes disse...

Lau,
muito grata pelo convite!
Adorei vir aqui! : )

Gostei,
especialmente,
de "Grafite".
Tenho andado
com (di)lemas similares...

Beijo,
doce de lira

susannah disse...

Vi a exposição do Hélio Oiticica na última sexta-feira. Importante para quem tem dúvidas quanto ao fato de a produção de um artista ser fruto de uma consciência sobre seu instrumental e de suas experiências com os signos de seu trabalho, no caso do Hélio, a cor, a forma, a tridimensionalidade, o espaço, as sensações. Entrar e sair de suas construções é uma experiência interessante. E pra quem não sabe, poeta é igualzinho: estuda, experimenta, arrisca, erra, tenta novamente, pesquisa e produz. Poeta não é ser inspirado. Poeta é ser/ter trabalho.

Bjs!