pulo didático







acostumei mirar de frente os precipícios


não raras vezes medindo meu porte de asas
para o pulo desmedido das coisas inexatas

na hora do salto nem mais um instante


sem replay
sem sunday
sem nada


o eco do próprio nome sumindo numa
emulsão partida de dentro do que parece
mais íngreme e menos vulnerável


coragem de seguir cumprindo o destino de
um rio que se faz sempre nascente ao longo do
curso e no espalmar das margens


(Lau Siqueira, poema vermelho)


UMA HISTORINHA DE JOÃO
Anos atrás o grande intelectual brasileiro, João Alexandre Barbosa, deu uma conferência sobre Drummond no FENART (Festival Nacional de Artes). Professor da USP, colunista da Revista CULT, respeitado pra caramba nos meios e nos fins, mas, como todo ser humano, já sofrendo na pele e nos pelos os efeitos do tempo. Com a idade bem avançada, mas, profundamente lúcido e sábio, João me fez morrer de rir. Estávamos jantando em algum lugar da praia quando passou uma moça bem jovem e muito bonita. João olhou pra menina, depois virou pra mim e disse: “Lau, o problema é que a gente só envelhece por fora!” Lembrei disso por ter vivido certa emoção, ontem no show de Lula Queiroga no projeto Som das Seis, da FUNJOPE.


OUTRA HISTORINHA DE JOÃO
Também contou que estava atravessando a Grécia, com a família, quando se deparou com um camponês atravessando a pista, pastorando cabras. Não resistiu e perguntou: “Caruaru fica pra lá?”. O cara gesticulou muito e deu muitas informações em algum dialeto que, logicamente, João entendeu tanto quanto o camponês entendeu a pergunta de João. João Alexandre Barbosa foi um dos mais férteis pensadores brasileiros. Um dos mais instigantes críticos da História da Literatura Brasileira. Morreu, mas ficou imortalizado pelos seus livros e pela sua dignidade. Livros como “A Metáfora Crítica” e “Entrelivros”, ainda hoje me ensinam coisas. Guardo com muito zelo, pelo conteúdo e pelo carinhoso autógrafo.


AUGUSTO DOS ANJOS
No próximo dia 20 de abril o poeta paraibano, Augusto dos Anjos, estará completando 126 anos de poesia. (Um menino!) Aliás, dando um banho de imortalidade no conceito de imortal das “associações recreativas e funerárias” (forma como Mário Quintana se referia à Academia Brasileira de Letras). Uma extensa programação comemora esse dia Augusto. Confira o bllog do evento: http://www.augustodosanjossape.blogspot.com/. Aliás, uma programação mais política que literária. Mesmo assim, extremamente válida. E viva o poeta Augusto dos Anjos. Nesse dia se comemora, também, o Dia do Escritor Paraibano. Sapé, terra de Augusto e Boqueirão começam a despontar como pólos de produção literária no interior do Estado da Paraíba


MEU PAI
Fosse vivo, meu pai teria completado 100 anos no dia 3 de abril de 2010. Faleceu em 1977, roído pelo câncer e pela esquisofrenia. Mas, vive até hoje em mim. Theodoro dos Santos foi um homem de origem camponesa, rigorosamente humano.


EXPOSIÇÃO VIRTUAL DE JOÃO WERNER
No website www.joaowerner.com.br você poderá conferir o trabalho desse artista brasileiro, nascido no interior do Paraná e que tem a internet como um canal aberto para a divulgação da sua arte. Segue como sugestão do blog.


POEMA DE PEDRO TAMEN


Um longo casaco de veludo azul
cobrirá um dia a madrugada que fabrico
dia por dia, mastigando os minutos
nos gestos destas mãos.
E ficará perfeita a vida que sufoco
nesta cave insalubre,
na penumbra habitada.


(POEMA 32, do poeta português Pedro Tamen. Poema de O Livro do Sapateiro. Enviado pela amiga portuguesa, Amélia Paes)

Comentários

Talita Prates disse…
E o que é a vida senão o "pulo desmedido das coisas inexatas"?

Adorei isso!

Um bjo,

Talita
História da minha alma
susannah disse…
Sempre um sujeito pensando em si, em suas escolhas, um sujeito vulnerável às partidas e às chegadas, ao que some e se revela na palavra corajosa, pois essa se entrega sempre aos precipícios do poema.
Assim vejo vc-poeta, e sua voz-poesia. Bjs!

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