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domingo, 18 de julho de 2010

ponto sombra







porque
tenho fé e cumpro
a sina de andar pelos dias

caminho entre milhas
de distância e lugar nenhum


costumo limpar os sapatos
e a garganta antes de cada passo
ou grito

escrevo


ainda que
em algum momento apenas
anote a placa do verso que

por mim passou voando

(do livro Texto Sentido – lau siqueira)

POEMAS NOS CLASSIFICADOS
Em 2008, participando do PortoPoesia2, em Porto Alegre, vi poemas publicados em caixas de fósforos. Anos atrás, aqui em João Pessoa, eu mesmo havia publicado em embalagens de camisas de vênus. Agora o projeto Cidade Poema, também em Porto Alegre, divulga a publicação de poemas nos classificados do jornal Correio do Povo. Na verdade o projeto “Versificados” é uma idéia do poeta brasiliense Antônio Araújo Junior e coordenado em Porto Alegre pela poeta Laís Chaffe. Participam do projeto outros cinco estados, nos classificados dos jornais Correio Braziliense, Folha de São Paulo, O Dia (RJ), A Tarde (Salvador) e Estado de Minas. A poeta brasileira Tainara, que mora na Espanha, publicará no Correo de Andalucía, de Sevilla.

A POESIA E OS NOVOS MEIOS
Poesia não vende! Esta é uma verdade bastante duvidosa porque Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Baudelaire e outros, continuam vendendo seus livros. A edição dos melhores poemas de Mário Quintana, pela Global Editora, vendeu mais de cem mil exemplares. Geralmente os poetas vendem melhor seus livros longe das livrarias. No entanto, vender não é o objetivo da poesia. A poesia é de uma inutilidade imprescindível e precisa estar no cotidiano das pessoas. Daí que propostas como essa que descrevo acima estão infinitamente num grau de importância maior que o debate sobre o mercado do livro. O mercado do livro é algo estupidamente incerto (e até inviável) para a imensa maioria dos autores. Para alguns, o mercado do livro de poesia é que é a verdadeira inutilidade. A poesia que nos acompanhe e que nos faça tecer a pele dos dias com o conteúdo da forma. Viver, para um poeta, é um conluio com a linguagem e suas mil faces. Nos tempos pós-modernos todo mundo pode fazer o seu blog e dialogar diretamente com uma diversidade enorme de leitores. A poesia é o fato dos dias da era cibernética.

AS ALTERNATIVAS DE PUBLICAÇÃO
Lembro que nos anos 70 e 80, participei ativamente de um processo que também respondia com a mesma intensidade dos suportes virtuais para a poesia. Mas, eram outros tempos. Os ritmos eram outros. Era o tempo da arte-correio. Nos anos 80, por exemplo, eu imprimia meus poemas em aerogramas e recebia em troca uma infinidade de manifestações de poesia visual de diversos lugares e manifestações poéticas que chegavam pelos correios. Portanto, penso que os poetas não tem do que reclamar. Não se pode alegar falta de espaço se poesia é exatamente a transgressão dos espaços. A internet se mostra como um espaço imensamente favorável para essa transgressão e divulgação da boa poesia (e da má, também). Portanto, aumentaram as nossas possibilidades e ficou na lembrança o tempo em que passar pelo crivo da critica acadêmica do eixo Rio-Sampa era o único para o reconhecimento. Os “tempos modernos” inventaram outros caminhos e a crítica do eixo Rio-Sampa pode tirar dos seus ombros a imensa responsabilidade de separar o joio do trigo.

A CRÍTICA DO EIXO
Não vai aqui qualquer sinal de desrespeito para com a crítica do eixo Rio-Sampa. Conheço e respeito pessoas brilhantes na academia em todos os estados. Ocorre que a internet vem diminuindo o complexo provinciano de quem mora em outras regiões e isso tem sido muito rico para a cultura brasileira e para a intelectualidade do eixo Rio-Sampa que não compactua com a hipocrisia da política literária.

LUIZ SERGUILLHA
Luiz Serguilha é o poeta português que melhor tem dialogado com a poesia brasileira. Publicado em diversas línguas (inglês, espanhol, alemão, italiano, catalão, francês, etc.), Serguilha tem dado especial atenção a sua relação com a poesia brasileira contemporânea. O poeta é um transgressor de linguagens inscrito nas melhores tradições lusófonas. Conheça o poeta!

UM POUCO DE JOSÉ SARAMAGO
“Não sei como perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...”

(do livro As pequenas memórias, Cia das Letras)

Um comentário:

nina rizzi disse...

lau, o blogue está ótimo, já sentia saudade.

um beijo.