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sábado, 18 de setembro de 2010

editorial





talvez
entre tantas
palavras
submetidas


seja preciso
dizer nada


(do livro O Comício das Veias – Editora Idéia, 1993,PB – Lau Siqueira)


LIBERDADE DE IMPRENSA
O termo é lindo: liberdade de imprensa. No entanto, com as concessões das grandes mídias fazendo a conexão entre o poder político e o poder econômico, falar de liberdade de imprensa é o que há de mais cínico em nossa sociedade.


ESCREVER VIVENDO I
As crises de criatividade são comuns. Alguns escritores chegam a passar anos sem criar absolutamente nada. Outros se consagram em apenas alguns anos de exercício literário. Ando numa dessas fases de absoluto silêncio. Algumas vezes elaboro mentalmente alguns versos que logo somem no ar, como uma maçã mortalmente atingida por um tiro. Então esqueço. Na poesia o que importa é a essência e não o fragmento.


ESCREVER VIVENDO II
Meus dias tem amanhecido e anoitecido na convivência com realidades medonhas e com possibilidades ainda bastante remotas. Escrever é viver o cerco das palavras, dentro de um redemoinho que determina a vida e a morte em cada esquina. Enquanto isso, a sociedade se omite. Os muros sobem, as cercas elétricas proliferam e os homens e mulheres comemoram cada vez que fecham a porta e deixam o mundo do lado de fora. Tem sempre um purgatório social na esquina...


POETA?
Tenho pensado sobre essa tal identidade poética que nos é imposta e que, tanta vez, se revela como um fato social. Será que somos poetas apenas quando somos reconhecidos publicamente como tal? É certo que ser poeta é um ofício. A palavra poeta vem do grego e quer dizer aquele que faz.


POETA!
Lembro de uma entrevista do Paulo Leminski dizendo que poeta é tanto o emissor quanto o receptor. Ou seja: a atividade poética se completa na leitura. Ler poesia, afinal, é tão complexo quanto escrever poesia. Na verdade, o leitor de poesia é sempre bem mais interessante que o próprio poeta.


POEMA DE MÁRIO FAUSTINO


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.


(Sinto que o mês presente me assassina, poema de Mário Faustino)

12 comentários:

Simonetta disse...

ah...para mim também o que realmente importa é a essência. forma sem essência é muito chato.ser poeta, escritor ou ator, de verdade, lá no fundo (não apenas para se exibir e poder afirmar aos outros) é um jeito de ver, sentir,reagir aos fatos da vida.é mais uma questâo de sobrevivência contínua e espontânea do que de pagar contas.poetas, escritores, atores, músicos, todos tornam-se uns chatos quando não o são de fato.pensei agora no meu sogro que tocava acordeon e piano, de ouvido, compunha na hora sons folk,mpb ou alguns que eu achava que eram mozart e ele ria e dizia: acabei de fazer pra ti.ele pagou as suas contas como alfaiate, garçom, mas viveu o tempo inteiro como músico, desde quando acordava e dava bom dia ou ia buscar côco gelado para os netos no boteco da esquina ou ia dormir cansado.ou meu pai, um grande escritor que não pagou suas contas com a sua escrita e nem por isso deixou de ser e conviver e trocar como quem aprecia,observa ou grita contra o que é injusto com a qualidade de um stendhal ou maugham,com domínio total sobre as palavras e sentidos, exercício constante e decorrente de crises e vitórias,super atento sempre ao que é verdadeiramente humano e ao que é apenas hipócrita.outro dia li uma matéria enorme sobre thiago de mello, por conta de seu novo livro, depois de anos e anos e anos sem publicar nenhum. adorei ouvi-lo contar como quando, numa madrugada recente, saiu da casa da amada , no flamengo,foi atraído pelo inebriante perfume de um arbusto de jasmins plantado numa praça e voltou pra casa buscando no dia seguinte as palavras que trouxessem para o palpável tudo o que aquele cheiro despertou nele em apenas um instante.que bom que ele divide com a gente. assim como você.

Simonetta disse...

ah...para mim também o que realmente importa é a essência. forma sem essência é muito chato.ser poeta, escritor ou ator, de verdade, lá no fundo (não apenas para se exibir e poder afirmar aos outros) é um jeito de ver, sentir,reagir aos fatos da vida.é mais uma questâo de sobrevivência contínua e espontânea do que de pagar contas.poetas, escritores, atores, músicos, todos tornam-se uns chatos quando não o são de fato.pensei agora no meu sogro que tocava acordeon e piano, de ouvido, compunha na hora sons folk,mpb ou alguns que eu achava que eram mozart e ele ria e dizia: acabei de fazer pra ti.ele pagou as suas contas como alfaiate, garçom, mas viveu o tempo inteiro como músico, desde quando acordava e dava bom dia ou ia buscar côco gelado para os netos no boteco da esquina ou ia dormir cansado.ou meu pai, um grande escritor que não pagou suas contas com a sua escrita e nem por isso deixou de ser e conviver e trocar como quem aprecia,observa ou grita contra o que é injusto com a qualidade de um stendhal ou maugham,com domínio total sobre as palavras e sentidos, exercício constante e decorrente de crises e vitórias,super atento sempre ao que é verdadeiramente humano e ao que é apenas hipócrita.outro dia li uma matéria enorme sobre thiago de mello, por conta de seu novo livro, depois de anos e anos e anos sem publicar nenhum. adorei ouvi-lo contar como quando, numa madrugada recente, saiu da casa da amada , no flamengo,foi atraído pelo inebriante perfume de um arbusto de jasmins plantado numa praça e voltou pra casa buscando no dia seguinte as palavras que trouxessem para o palpável tudo o que aquele cheiro despertou nele em apenas um instante.que bom que ele divide com a gente. assim como você.

Simonetta disse...

poeta, ator, escritor...para mim é uma maneira de enxergar e reagir à vida ,sobreviver mais e muito além do que profissão para pagar contas, contar para os outros, preencher fichas.quando a forma não tem essência é muito chato mesmo, é hipocrisia, enganação, qualquer coisa menos arte.apurar a forma continuamente é maravilhoso para quem tem o que contar.meu sogro foi um grande músico e viveu como músico e artista, compartilhou a sua arte no dia a dia, apesar de pagar as suas contas como alfaiate e garçom.

Simonetta disse...

ai o sinal da internet está caindo aqui a todo momento... achei que tinha sumido esse enorme aí,
reescrevi outro pequeno...
quis dizer Ferreira Gullar
quando disse Thiago de Mello....

moisés . poeta disse...

gostei do seu blog !
voltarei sempre !

um abraço!

Izabel - In Memorian disse...

Olá! Tudo bem? Parabéns pelo blog! Gostaria de te convidar para nos visitar! Publicamos diariamente poesias e artigos educacionais escritos por Izabel S. Grispino. Espero sua visita! Abraços!

homensdopantano disse...

liberdade total
vital para a essência
no mundo do pode tudo
tudo pode
tudo
pode

Weder Soares disse...

Caro poeta, eis as letras desenhando vida no parapeito poema. Um grandioso abraço de cumplicidade.
http://wederpoetago.zip.net/

susannah disse...

Ser poeta... é fazer pela palavra e na palavra a diferença. Ler já é viver e transformar, é um estado de poeta. Mas nada é tão simples assim, nem a poesia, por mais que a palavra se vista de sua própria nudez. Estar nua é algo muito complexo para uma sílaba dita no canto ... da boca. A poesia é assim, faz a gente dizer aquilo que o mundo se nega a dizer. Para ser poeta tem de ter coragem.
Bjs!

Libélula Sou! disse...

Bem breve... porém, bem definido.
Estou gostando Lau. O interessante da escrita dos pensamentos é a idêntificação individual.
Minhas felicitações pra você acompanhado de um forte abraço.

Libélula Sou! disse...

Eita, desculpa LAu nem me identifiquei. Que lhe deixa este comentário é Julyana Terto, ex do grupo Afronordestinas.
Beijo na alma.

Libélula Sou! disse...

Bem breve... porém, bem definido.
Estou gostando Lau. O interessante da escrita dos pensamentos é a idêntificação individual.
Minhas felicitações pra você acompanhado de um forte abraço.
Quem lhes deixa este comentário é Julyana Terto, ex do Afronordestinas