Tinto Seco





Querido diário. Vírgula.
Novalinha. Sou um cidadão do
meu tempo. Ponto. Olho ao redor
e vejo que a esperança habita
somente os olhos de quem luta.
Ponto. Vejo tudo pelo olhar que
assusta. Ponto. Vejo a louca
entre a viagem e a musa. Ponto.
Ponto. Ponto. Vejo a vida difusa.
Ponto. Inconclusa. Ponto.
E ponto. Ponto.


(Tinto seco, poema do livro texto Sentido - LS)


OS MANOS DA LÍNGUA - Nos próximos números do Poesia sim, vamos fazer algumas incursões pela poesia contemporânea dos países de Língua Portuguesa. logicamente que o conceito de contemporaneidade não estará, por aqui, restrito às décadas que se aproximam deste início de século. Apesar da internet, ainda é muito débil o fluxo de informações e impressões trocadas entre poetas de países como Brasil, Angola, Moçambique, Portugal e outros. em alguns dos próximos números do Poesia Sim, vamos buscar encurtar essa distância para os nossos queridos leitores e queridas leitoras.


O POETA ANGOLANO ANTÓNIO JACINTO - Nasceu em Luanda, em 1924.Teve intensa atividade política como militante do MPLA - Movimento Pela Libertação de Angola, cumpriu pena em Cabo Verde, ganhando liberdade condicional em Portugal, de onde fugiu para integrar-se à guerrilha do MPLA. Poeta e contista, participou ativamente da vida cultural e política angolana, tendo sido ministro da Eduucação e Cultura de Angola. Faleceu em Lisboa, em 1991.


Monangamba




Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:
Naquela roca grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
"Monangambééé..."
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
"Monangambééé..."

(Poemas, Luanda, 1961 - poema de antónio Jacinto)

Comentários

Raquel Amarante disse…
Estou adorando suas poesias!!
Diário disse…
Boa tarde Lau! Seu blog é maravilhoso, eu amo poesias, tenho uma alma de artista! Desenho, escrevo, pinto... Mas com 30 anos não sei quem eu sou! Pareço boba? Adoro Drummond, Vinicius, Pessoa, Araujo Jorge... Vou estar sempre aqui visitando seu blog e me inspirando... Seu trabalho é maravilhoso!!! Parabéns.
Meu blog:www.diarios-do-anjo.blogspot.com
carla disse…
Linda poesia de um poeta da minha terra,sempre divulgo poetas Angolanos no meu blog.
Atenta a teus escritos e palavras,um pouco de poesia deixa o dia mais leve!
Bj
líria porto disse…
belíssimo o poema de antónio jacinto!
besos
Lau Siqueira disse…
Gracias, Raquel. Gracias Diário. Carla, pensei que vc era portuguesa. Líria, que felicidade ver vc por aqui.
Poesia colada à vida no limite, no nervo exposto e latejando.
Grande poeta que eu não conhecia, grande ser humano.
Abraço, Lau!
José Antônio Silva

Postagens mais visitadas deste blog