terça-feira, 4 de março de 2014

Entrevista ao jornalista Wagner Lima

Já faz algum tempo que o jornalista paraibano Wagner Lima me entrevistou. Não lembro bem para que veículo e nem sei se a entrevista foi publicada, mas o fato é que encontrei esse material no meu computador e resolvi repartir aqui no blog.

Lembro que nesta época o poeta e amigo, Frederico Barbosa me alertou sobre a utilização do meu poema Aos Predadores da Utopia no perfil de várias pessoas no Orkut.  Só que transcrito como frase e atribuído à Clarice Lispector. O que se poderia esperar de um poema que está até mesmo no site infeliz, O Pensador? (rsrsr) Já perdi o controle faz tempo.

Inteligente e antenado, Wagner conduz a entrevista dentro de um olhar absolutamente contemporâneo, onde o perigo e o prazer caminham lado a lado. Enfim, um debate que bate às nossas portas já faz algum tempo.



WL - Acompanho o seu trabalho faz algum tempo e sei que essa chateação com a falta de crédito (ou crédito indevido) se dá mais pela necessidade de se atribuir a produção a quem realmente fez do que à uma necessidade egocêntrica. Te assusta essa liberdade em demasia, em que tudo parece ser possível como se fosse "terra sem lei ou sem ética"?

 
LS - Digamos que assusta por alguns bons motivos e diverte por outros tantos. Estive lendo na revista Serrote um ensaio da crítica literária Beatriz Sarlo ("O Animal Político na Web") e ela diz algo que me parece pertinente para uma reflexão:  “usando a lógica do boato, o Twitter e o Facebook espelham uma sociedade cuja memória coletiva sofre de Alzheimer”. Isso preocupa,  porque de muitas das inverdades que estão online, fatalmente a memória coletiva será vítima. Aliás, já é. Entre as minhas dúvidas sobre o futuro da literatura predomina uma certeza: o cânone do século XXI passará necessariamente pelo que hoje se chama de literatura eletrônica, já que a imensa maioria dos livros antes de serem impressos são arquivos digitais, muitas vezes, com boa parte do conteúdo disponibilizado online. Então, preocupa a construção de  referenciais enganosos, seja por falta de escrúpulos ou por ignorância. No caso, a ignorância torna o fato ainda mais grave por se reproduzir com maior velocidade e precisão. Não é novidade que circulem textos na internet com autorias comprometedoramente trocadas. As principais vítimas são Martha Medeiros, Clarice Lispector, Luiz Fernando Verissimo, Pablo Neruda, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luiz Borges, Gabriel García Márquez, entre outros, mas parece que isso não desperta ainda a devida preocupação dentro da cibercultura. Não é ético. Aliás, não existe nada menos ético que a ignorância. A ignorância e a falta de ética não podem ser desculpadas pelo progresso tecnológico. Se não, o que estamos fazendo dos valores humanos? Fui alertado por um amigo recentemente, em São Paulo, e percebi que mesmo em menor escala, alguns dos meus poemas também começam a fazer parte dessa falsa lira. Imagine, que encontrei poema meu em um blog que homenageia Clarice Lispector, com a autoria atribuída à Clarice! Acho preocupante, principalmente, pela boa vontade de alguém em prestar uma homenagem a uma escritora ou escritor possa se dar sem conhecimento mínimo da sua obra e resulte num desleixo desse porte. Clarice nunca escreveu um livro de poemas, embora sua obra tenha aspéctos extremamente poéticos. Não é possível que seus profundos admiradores virtuais não saibam disso. Mas isso tudo vem sendo reproduzido e provocando equívocos em cadeia, não apenas comigo. Em perfil de Orkut e Facebook, os equívocos autorais chegam a ser hilários, demonstrando certa banalização da própria ignorância. Isso é grave do ponto de vista da memória cultural do povo. Se a internet é hoje uma importante ferramenta para a Educação, não podemos deixar de ficar preocupados, porque a história da literatura,impunemente, vem sofrendo um estupro atrás do outro. Não se trata de egocentrismo, logicamente, porque não defendo apenas o meu direito autoral, mas uma história da literatura sem a afetação de equívocos tão grosseiros. Sem obervar esses aspéctos, vamos construindo referenciais absolutamente falsos para as novas gerações uma vez que cresce vertiginosamente o acesso à internet pelos jovens e até por crianças. Esse é um dos fatos que preocupa na internet e não é privilégio apenas da literatura, infelizmente. Mas, isso não ocorre apenas na internet. Já faz um tempo pude ver um texto assinado por mim numa agenda do PSTU. Só que o texto nunca foi meu. Desconheço sua autoria.

 

WL - Você mantém o blog e algumas intervenções nas redes sociais com poesia. A internet é um espaço que pode ajudar a disseminar corretamente o poder que a poesia tem e antes estava "enclausurada" exclusivamente quase aos livros?

 
LS - A internet é uma mídia poderosa para a literatura. Nunca existiu nada igual, especialmente para a poesia. É um instrumento que, se usado com responsabilidade, pode ajudar a desenvolver processos estéticos e pedagógicos. Os blogs têm um apelo muito forte para a juventude. São canais de expressão da maior importância, pelo grau de interatividade e por se tratar uma ferramenta de fácil manuseio. No caso da poesia podem e devem servir como laboratórios de criação. O impacto de um poema pode ser medido pela reação dos leitores ou pelo mais absoluto silêncio. Mas a poesia sempre teve canais diversos, seja na forma oral, seja nos seus inúmeros suportes. O livro nunca foi a única mídia do poeta. Os blogs são, na verdade, fanzines eletrônicos que se tornaram instrumentos fundamentais para a investigação da cena literária contemporânea. Veja que até José Saramago possuía um blog. Manuel de Barros tem sua poesia divulgada no Twitter. Especialmente da geração 80 pra cá, está todo mundo conectado. Enfim, não se pode dissociar os avanços tecnológicos da criação literária. Mesmo quanto aos aspectos mais particulares da criação. Mas, em que lugar estético e histórico estamos? O escritor  Joca Reiners Terron matou a charada. Ele disse que definir o que está aí em termos de literatura, seria como abrir a tampa de um liquidificador ligado. Sairia pedaço de abacate pra todo lado. Assim como no século XIX e início do século XX os escritores publicavam romances inteiros, capítulo a capítulo, nos jornais, hoje se publica muito nos blogs e nas redes sociais antes de partir para a forma impressa, ou mesmo depois. Algumas carreiras literárias já nasceram dessa ferramenta, como a de Clara Averbuck, por exemplo. Com uma vantagem: os blogs funcionam também como os nossos "agentes literários", nos ajudando de forma fabulosa no processo de distribuição nacional dos nossos livros. Meu último livro, Texto Sentido, foi parar em Santarém/PA, Montenegro/RS,  Botucatu/SP e Cacoal/RO, sem que eu nunca tenha visitado esses lugares e sem participar das redes de livrarias. Tudo foi distribuído pelo blog e pelas redes sociais.

 

WL - Como é para você que algo que escreveu seja associado a Clarice Lispector? De repente parece que tudo, na web, que se refira ao psicológico e ao 'eu' é Lispector.

 
LS -  Não ser um estudioso de Clarice, mas admiro sua obra. E vejo que se reduz drasticamente a importância da sua literatura ao limitar sua abrangência às questões existenciais. Ela era muito mais que isso e discorrer sobre o assunto resultaria aqui num ensaio, certamente, e não é o caso. Ter algum poema  atribuído à Clarice não é motivo de orgulho, apesar da imensa admiração que tenho pela autora. É motivo de preocupação com o que está sendo posto para um futuro que não sabemos em que oceano irá desaguar. O que mais preocupa é que existe pouca disposição da maioria dos literatos em discutir algo que não esteja diretamente ligado a algum interesse imediato. Parece que não estamos diante de risco algum.  Acredito no que disse Antônio Cândido: “A literatura é um dos direitos humanos”. Por isso, acho preocupante essa negação dos direitos humanos quanto aos valores éticos da literatura.

 

WL - Mesmo com o caso você posta poemas inéditos na internet?

 
LS - Sim, sem dúvida. Seja nas redes sociais ou nos blogs. Vejo a publicação no blog como um tipo de registro. Porque o que está lá tem data e hora de postagem e, portanto, se for copiado e reproduzido, será feito posteriormente, fato que resguarda o direito autoral, ainda que não o resguarde da balbúrdia virtual que já está posta e acho que deve nos ensinar, também, a escolher caminhos. Então, essa não é uma preocupação que deva ser particularizada, penso eu. Além disso, meu poema mais distribuído irregularmente foi publicado em livro, em 1998 (O Guardador de Sorrisos), quando a internet ainda não tinha a força que tem hoje. Já saiu até em coluna social, num texto de uma colunista de Campinas/SP, como frase e mesmo sem aspas. Portanto, não vou me fechar, embora certamente passe a criar meus mecanismos de defesa no próprio blog, onde além de poemas, publico minhas ideias sobre tudo isso e muito mais. Muitos dos textos que circulam com autoria trocada na internet, foram registrados legalmente e isso não impediu que fossem violentados pela ignorância ou pela falta de ética de algumas pessoas para com qualquer processo de conhecimento e não apenas com a literatura. Aliás, quem age assim com um texto, imagine o que será capaz de fazer com a vida! Tem gente que sofre de algum tipo de patologia moral grave.

 

WL - O  poema em questão foi "Aos Predadores da Utopia" mesmo?

 

dentro de mim

morreram muitos tigres

 

os que ficaram

no entanto

são livres

 

(O poema está na íntegra?)

 
LS - Sim, está na íntegra. Foi assim que foi concebido e assim está publicado em vários lugares e idiomas, inclusive na antologia Na virada do século — poesia de invenção no Brasil, organizada pelos poetas Frederico Barbosa e Cláudio Daniel (São Paulo: Landy, 2002). É um dos meus poemas mais traduzidos e tem ampla circulação. Imagine se eu me preocupar em saber como é usada a tradução em catalão, que foi feita pelo poeta espanhol Joan Navarro? Como vou saber se circula com o meu nome ou não? Em alguns blogs e perfis do Orkut este poema foi postado como frase de Clarice. Recentemente, entrei em contato com uma pessoa, pedindo para consertar a autoria no seu perfil do Orkut, onde estava o meu poema e ela ficou furiosa dizendo que “eu não conhecia a obra de Clarice”, veja só. Realmente, conheço um pouco mais a minha. Pelo menos sei o que escrevi e o que não escrevi. Certa vez, numa das publicações da Editora Tribo, de São Paulo, saiu um poema meu e eu contestei a autoria. Não lembrava do poema. Pedi para confirmar. Imagine, o poema era mesmo meu. Eu não lembrava, porque o meu exercício de criação poética é meio frenético em algumas épocas. É como se fosse um salto no abismo, onde a gente vai perdendo a noção do tempo e do espaço que delimitam a nossa identidade artística, a condição de criatura e de criador. Perseguir algo tão arisco como a poesia não poderia ser diferente. Afinal, como dizia Mario Quintana, “a poesia se resume na procura da poesia".

Nenhum comentário: