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terça-feira, 23 de maio de 2017

Poemas ainda inéditos

GERMINAR

A memória
é uma espécie de cravo
ferrando a estranheza
das coisas.

Um pau rijo
esguichando sementes
nas valas alagadas
da pele.


Estilhaços no hálito
sedento das matilhas.
Onde o mundo é,
sobretudo, cão.

Chove.

Adormeço sonhando
com o dia que vai
nascer.



...

MANDALA



no percurso
da pressa
nada escapa
ao súbito

vento soprado
na primavera

(tão bela)   

esticando 
estrelas em
mandala

(tão mala)

...

O TEMPO


Para seguir
em frente nunca
é cedo.

Exato é o
trançado que
trocamos entre
os dedos.

Numa puta
vontade quase
medo.

...

SALIVA


bebi na tua boca
o tinto e seco manjar
da minha sede

(                               )

era mesmo tudo pele
nada ali era parede


...

MANICOMBO


o mundo continua
o mesmo e velho
hospício


janelas e portas
fechadas do fim
ao início

...

GRAVATARIA TROPICAL

O homem nos tribunais de cada
dia. A mulher também. Porém,
em inumerável menor número.

Ele na gravata. Ela no salto.

(A vida, na aparência, é o lugar
onde tudo sorri.)

A equivalência do salto com a
gravata. A abotoadura digital.
O perfume franco-chinês. Os
babados. Os clichês.

Os que buscam nos códigos
da justiça as leis do sangue
derramado...

Os donos da fome.
Os industriais da infâmia.
Os calhordas da nova ordem.

Os executores do estático
num mundo em movimento.

Os que mudam de lado conforme
a logística da conveniência. Os que
expelem pelas narinas uma agonia
vestida de tristeza.

                (E os que viram a mesa.)

Os que seguram o sopro e guardam
nuvens no bolso. Os que sustentam
as próprias tempestades.

Os que fazem da vida um trajeto
vertical e não se dão ao luxo de
parar diante de um infinito

                                    ponto final.

...

LETAL

aqueles seios bélicos
apontando seus bicos

(                                 )

pequenas torres
do desejo derretendo
em minha
boca 


...

AS LOUCEIRAS


mãos que passeiam
no barro 

              ternura
de quem busca
na perfeição
a perícia

beleza ao alcance
de quem a deseja

delícias no casco
mordaz do futuro

nos dias que virão
da louça que dobra

...

a partir das sobras


...


PRESENTE


futuro e passado
são palavras aladas

uma parece que é tudo
outra parece que é nada

já o presente
é este agora
que não cola

silêncio meu
que para falar

cala

...

SONATA

viver
é um verbo
tão denso
quente sólido
e absurdo

que parece
uma pedra

mas canta
e voa cheio
de ternura

...

STRIP


minha verdade
sempre tão hercúlea

perdeu argumentos

para uma mentira
sua

...

AS LÉGUAS DA TRISTEZA


Eu guardo lágrimas entretidas
num sorriso. São lágrimas que
suportam as dores. Mas, não
desejam retomar os caminhos
da tristeza.

Tenho lágrimas recorrentes
de águas cálidas. Doces
vertentes do que transborda.

Por isso morro dentro do que
por fora ri enquanto cicatriza.

Aprendi a domar as
tempestades. Relampejar
trovoadas.

(E às vezes choro
quando a vida sorri.)


...

TEMPORAL

nada mais puro
que pensamento
sem rumo

levando sempre
ao mesmo olhar

nunca visto


,,,

TANGO


ninguém te vê
com meus olhos

com meus braços
nenhum outro
abraço

tudo é tanto
e tão pouco

(que louco)

...

CAVALO MARINHO


a solidão é um corpo
a menos e uma pele
singular lapidando
os sentidos

por isso digo sim
e finjo que sou 
livre

como um cavalo
marinho querendo
voar

...

ESGRIMA


metade de mim
é um beco sem saída

caminho sem volta
traçado sem tropeços

lonjuras disfarçadas
desde o começo

......

AMOR


porque
sonhamos
juntos

não saberei
das palavras

e o silêncio 
sempre será

nosso melhor
discurso

...

( ABRE ASPAS


depois da última
estrela nada mais
existe

depois da última
escala no meio
do rio
         o voo
         da estaca

no que não exime 
da questão exata

ao que 
não se basta
no fio da faca

fecha aspas )

...

RUA DA AREIA


nem dia
nem noite

apenas luz
e sombra

)               (

colibris
e vampiros

bebendo a
última taça

...

FORA DO ESPELHO



essas lágrimas secas
recolhidas no olhar

meu triste samba meu
blues meu fado meu fardo

minha sede quando chuvas
não suportam esse rio que
transborda e seca

transborda e seca

vontade extremada
das abelhas que chupam
a invisibilidade da beleza
 
trapaça das dores e risos
no mesmo tanque

nem das trilhas cobertas
por onde a pressa dos pés
sangrados

...

nem tudo é trova
ou trovão 

apenas a vida no modo
cão-chupando-manga

                         (não manga)

...

ESTRANHAMENTO


quanto mais te vejo
em outras paisagens

mais meus olhos
somem do teu rosto

...

INCELENÇA


a morte tem passos lentos
e caminhos de nunca mais
voltar

ritmos quebrados
do zabumba
ao maracá

(tudo que há)

tinhosa voluptuosa
e calma

existe para ensinar
que a vida é maior
e viver é somente

 um sopro no ar


...
VARADOURO



essas casas tão antigas
legados da arquitetura
ao tempo

resistem às ruínas
como alegorias
desbotadas

passos sumidos
na pressa dos
esquecidos

a história tombada
sobre outra
              soterrada

onde o poeta caixa
d’água fez do poema
ladeira da borborema
seu porto final


...


DIVINA BUCETA

a palavra buceta tem
sonoridade centrada
no próprio sentido 

onde a língua escava
o gosto de gozar no
cheiro e na pulsação

não a chamaria jamais
de boceta - com esse
o do borogodó

a chamaria
e chamo
buceta

e só

com u
não com o

com uhhh
ohhhh

a palavra buceta
depilada de outros
significados

puro soul
com barbatanas

aguçando a mira
do gemido

engolindo os
significados
que falo

quando
a pronun
cio


...


MANOEL MONTEIRO

é sempre no extremo
que a vida se encontra
com a morte

jamais haverá
de ser triste
      
apenas dói

porque a tristeza
é outro dobrado

revela a verdade
em sol maior

a morte é um voo
que deixa marcas
profundas num céu
quase sempre
nublado

na coragem dum
pouso derradeiro

num efeito águia
manoel monteiro


...
ESCADA ROLANTE


distraída no shopping
praça da alfândega
em recife

a moça foi capturada
pelo poema

nem percebeu
o cheiro forte
da permanência

estatueta de lua
sobre o mangue


...

CENÁRIO DOLOSO


Depois da imagem
de um homem acorrentado
ao destino pelas ruas
do Crato,

um menino envelhecido
transformado em estatística
nos sinais de João Pessoa.


Depois de tantas esquinas
e tantas mãos estendidas
sem anéis e sem dedos...

Percebo que o mundo
mudou tanto que
permanece o mesmo.

 ...

DO EFÊMERO


da janela vejo que
o mundo se espalha
e espreguiça

a tarde brisa
num horizonte
lento

a vida vai cumprindo
suas estradas

            e mais nada

 ...

PIXO


no fim de tudo
nada está pronto

às vezes fico mudo
noutras vezes

fico tonto

...

OLHOS DE MERGULHO



Para voar só preciso de abismo. Me basta.
Porque no abismo meu plano de voo vai
do derradeiro impulso ao barro espalhado
do último pouso.

Para voar nunca me faltaram asas.
Ou mesmo braços esticados contra um céu
desfolhando o amanhecer. Nunca faltaram
impulsos nem senti qualquer desejo
de cortar os músculos.

Por isso escolhi um olhar estirado nos
horizontes. Como arapongas atravessando
o vale para destilar a primeira queda no
destino caça de qualquer predador.

Guardo o silêncio dos meus gestos no viés
do espelho. Recolhendo a trapaça das nuvens
e vestindo blusas blues. Para andar por aí tão
invisível e tão infinito quanto o pensamento...

Sem a servidão da certeza.

 ...

ORDEM
& PROMESSAS

noite ilustrada
verás que um filho
teu

não dorme
na calçada

...

...
memória destroçada
qualquer lembrança
é melhor que nada

...

...
sensação estranha
a solidão é uma lua
que me acompanha

...


é tempo de lama e bala
entre paris e mariana
há um silêncio que fala

...

...
subirei nas telhas
para ver garrincha
driblando estrelas

...

...
gourmet do estilo
o poema engordou
mais um quilo

...

prezada distração
o rádio está ligado
mas eu não

...

navegar é preciso
sem barco sem leme
sem mar nem juízo

...

liberdade vigiada
a sombra caminha
pela calçada

...


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