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Mostrando postagens de Fevereiro, 2018

MEU NOME É JOÃO

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SOBRE EXPLOSIVOS E OUTRAS MISSANGAS

A poesia não abre portas. Não espalha
o ar rarefeito da sala. Não tira os pelos
da cama. Pentelhos...

Não importa aos senhores
do Conselho. Nem às senhoras
do movimento.

A querem luta. Pobre puta!

Aos suicidas é apenas o motivo. Que no
sabre sobra e surta.
É só um caos. Um penhasco do qual salto
sem asas para dentro das miragens.

A poesia não reconhece as covas
da eternidade. O cânhamo e não o cânone
é sua matéria.

Artéria de aquarelas. Metáforas singelas.

E a poesia, esperta, finge que é pássaro
e voa longe dasua verdade fingida.

RIO DOCE

era uma vez um rio
que nunca afundou
um barco

entao veio a samarco

levou pasto pedras
gente carro árvore

assustou os pássaros

detonou uma bomba
de hirochica

tsunami azedo num
rio que era doce

nem era tanta sua fama
quanto densa é a lama

e não restou sequer
um único entardecer
pra semente

pois a morte de um rio
destrói até o poente
(Lau Siqueira)

CLASSE OPERÁRIA

Somos bem estranhos. Convenhamos,
somos muito estranhos. Não falo da sua
tribo ou da minha. Falo dessa cortina
de ferro entre nós. Cada vez que fico triste
com algo banal, lembro da Palestina. Ser
triste, portanto não nos completa.

Mas, somos mesmo estranhos. Não nos
falamos, às vezes. Mesmo tão próximos.
Ainda que a vontade exista, permanece
muda. Brigamos por pouco. Ou melhor:
por nada. Às vezes a saudade é um
soco. Às vezes a vida não tem
troco.

E isso é só um sopro.
Viver não é um jogo. É somente
um verbo e seus malogros.

Ainda que não nos reconheçamos, algo fará
com que nossas alças de mira estejam
apontadas para o mesmo motivo.

Sempre com nossas mãos vazias, desarmadas
e destemidas. Somos estranhos porque estranha
é a vida. Com suas premissas. Com suas injustiças
consagradas. Com a versão de mais um aboiador
caindo nos andaimes futuristas de Brasília. Aliás, 
nossa “queda da Bastilha”.

No mais, fica esperto. Em cada final há sempre um
ponto de partida e talvez
um…

SOBRE RENAS E TRENÓS

Hoje o dia amanheceu tranquilo.
Natal de 2017. As noites de sono
que desapareceram nas nuvens,
finalmente deram as caras:

picharam de estrelas a escuridão.

Escreveram que o sonho
é uma certeza e que apenas
o sonho é uma certeza...

Quando amanheceu havia canto
e havia pássaros...

Tudo era som, luz e movimento.
Até as folhas da bananeira no quintal
do vizinho.

Agora o Sol estica seus incêndios
para iluminar outras paisagens.
À noite somente os gatos habitarão
os telhados.

Claro, os não castrados. E nunca
nas torres onde se escondem
todos os culpados.

Em direção à casa vazia o inseto
atravessa a rua num voo longo e
reto. Ultrapassa a janela aberta
numa velocidade que zumbe

e despedaça o espelho.





SEM PANTIM

Limpar o mato. Varrer o quintal. Plantar
a semente e esperar o pássaro. Abrir a
porta para a tempestade. Colher
o alimento que voa. Cantar para ninar
o silêncio. Sair em direção ao vento.
Apontar e atirar no baque mortal.

Dar beijo na nuca.
Acreditar no que pulsa.

Viver como se o mundo fosse um Parnaso
pós-guerra. Com suas histórias mutiladas 
espalhando lixo pelas calçadas. Bombardeios
de sobras. Baionetas caladas, mas não
mudas. Metade de um quarto na subtração
das coisas escassas.
Mesmo assim as borboletas voam. As cigarras
cantam. As formigas trabalham. Os morangos
envermelham a plantação. Cada vez menos.
Cada vez menos...
Às vezes parece que isso é tudo. Mas, não é.
Viver é um tipo de jardinagem. Do plantio às
colheitas. Sem as marcas do abandono. Uma
linguagem de mascaras invisibilidades.

O cajueiro dá o troco ao machado enquanto
suporta a dor da poda. Produz mais e mais
frutos. Nas chuvas de dezembro é um galho
imenso carregado. O tempo olha pela janela.
Como se n…

NÃO HÁ RETORNO.

Eu sou o meu maior desafio. Nesse prado imenso cercado por
cobras e colibris. Só creio no que
me permite a dúvida.

É imensa a minha vocação
de caça quando me protejo na
pele do caçador!

São muitas as fragilidades
de um predador. Somos a
violência calma do rio que
tudo arrasta.

A navegação que sombreia
as margens. A imagem que
a acidez do olhar sabotou.

Invisibilidade das pedras que
acolheram as profundezas.
Onde a vida pulsa alforrias
– farras e manias.

Somos nada. Do pergaminho
ao Pégaso digital das plataformas.

As manhãs são cada vez mais
antigas. As noites cada vez mais
curtas e as madrugadas não
perdem por esperar...

As estrelas são escassas. Raros
são os planetas desta imensa
solidão. O universo cabe dentro
de nós quando ilimitado.

Caminhando pelos becos
e flutuando pelas avenidas. Eu vou como quem voa.

Vivo como quem duvida. Com
uma fé imensa nas minhas
descrenças. Um poço entre nós
define essas diferenças.

Já não há tempo
para a esperança.

Palavra
é bala perdida mesmo
q…

POEMA DE CLASSE

Vamos combinar assim:
fico com minha derrota.
Dela me orgulho. Disse
não.
Mas, tu terás de suportar
eternamente o fedor da
tua vitória.
É o que dá cheirar o cu
dos que mandam na história
que te exclui.
Um bafo podre habitará
tua memória.
Todas as manhãs verás no
espelho um lagarto chamado
tempo comendo teus olhos.
Cagando nos teus joelhos...
Covarde!
Sem carimbo de fidalgo. Tua
previdência será um cálculo -
renal.
Animal!
(Foi mal! Tou falando de lixo.
Não queria ofender bicho.)
Sim, falo de ti. Tu que limpas
o boga com a toga. Falo de
ti e dos que só dizem sim.
Seu lacaio em espiral!
Estás nos tribunais,
nas igrejas e no
Congresso Nacional.
Nas corporações. Nos
porões. Num país
taciturno e de coturnos.
Operário do dinheiro.
Homem de bem. Bem
mal.
Tu não existe.
Tu não tens partitura.
Tua história estará na
pele dos que morrem
nas braçadas.
Escutarás nos ecos
a dor dos becos.
Tu que agora estás
pelas esquinas. Cuspindo
labaredas no algodoal.
Escuta!
Vou te contar uma história:
- era uma vez um país
que se reunia na frente
da te…

ADEMIR DA GUIA

Elegante e altivo. Flutuando
sobre a grama. Atento e calmo.
Driblava. Distribuía o jogo. 
Que espanto imenso
aquele verdejar... Noventa minutos ainda
era pouco. Seria um clássico se fosse da
literatura. Era do futebol. Suas
sentenças eram ditadas mais
pela mente que pelas
pernas. Bailarino solo em campo.
Camisa 10 é de lei. Nem
todo Príncipe será el Rei. Entrou para a galeria
dos mais inventivos. Os que
sabem o lado adversário
e reconhecem o seu. Discursa para as bases: Nem toda luta é de classes.
Nem toda torcida é claque. Nunca fui bom de bola. Mas,
lembrando de um mestre quis
logo fazer um gol. Escrever
poema foi o que apeteceu. (Não faz falta
quem correu.) Lau Siqueira