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PIRILAMPOS

quando tu
cigarra em mim
com teu perfume

eu vaga-lume

ECLIPSE

toda beleza é ancoradouro
e é barco e é mar aberto e

é farol e é tempestade e é
o azul com arco-íris e é sol bebe a sede que veio
de longe jorrando aos risos num rio
de metal e metáfora toda beleza é pura
e é mestiçagem violeta algo brusca
na manhã que a ilumina no mais
é a vida que ensina

(Lau Siqueira)

SEM PAREDES

A vida é água corrente,
das cheias às estiagens.

O que permanece
é imagem disparada.

Parece um rio e suas
corredeiras num vale
de pedras submersas.

Imóveis, impávidas,
imutáveis na espera. O que permanece é
imagem e memória
pregadas no enigma.

A certeza é um vento
e a vida que bate
no peito.

Essa vida que bate
nos ombros e mesmo
onde pesa crescem
asas...

O instante é o signo
de um infinito veloz.


(Lau Siqueira)

MENTIRAS ÍNTIMAS

Perdi o medo dos abismos.
Não pelo meu porte de asas
em voos vencidos. Já não me cabem as penas. Aquele medo de ir na esquina
e nunca mais voltar. Não voltar
não muda nada. Somos
semente germinada...
Somos o que trafega até o fim
e depois continua, firme. Sou o que somos.
Somos o que sou. Sou o que me supera
e o que me separa. O que permanece no vigor
das coisas frágeis. Do que não mais transita na
pele. Do que não deixa rastros
e nem faz sombra na romaria
dos mormaços. Na contramão dos enredos, dos
diapasões e dos medos que
ajudam a caminhar... E nos permitem perder
o caminho.
Lau Siqueira

COMBUSTÃO

O que se mostra nu
não é o corpo. Porque
o corpo nu está sempre
escondido debaixo
da pele.
O que se mostra nu
é o avesso.
O que não meço.
O tropeço. O que não
posso, mesmo quando
imerso.
O que se perdeu por dentro
não pode ser exposto. A
menos que a morte aponte
o oposto.
(Eis a vida e seu rosto.)
O que se mostra nu não
é o espírito porque este
nem de pele se veste. É
vento que se espalha
pelo ar. Sem cheiro
de nada.
Apontamentos
apenas...
Daqueles que transtornam,
mas também se derramam.
Como se derramam os
os idílios e as bússolas
da travessia.
Necessárias cordas de fio
afiado. Rapel de caminhadas
íngremes e árduas.
Mensurações do abandono
enquanto lado reverso
da solidão.
O que fica além de nós
é a rua do espanto...
No que era tudo
No que era tanto...
Tenho versos para dizer.
Falo de um silêncio que não
cabe no abismo.
(Lau Siqueira - agosto 2018)

DO TEMPO QUE DEVORA

o sopro da tua falta
acaricia meus braços

e esta sede é apenas
a água que me basta

CANTO BREVE

Parei pra dizer olá. Depois fui embora. Vida passarinho... Nem tudo é voo.
nem tudo é ninho. (lau siqueira)

EQUINÁCIA

Gosto de chá.
De café, também.
São prazeres diferentes.
Amores distintos, mas não
divididos.

No caso do chá, gosto de
sabor que traz cura.

Por exemplo, estou tomando
um chá de equinácia. Aumenta
a imunidade.

Mas, o que eu sinto mesmo é
um paladar pousado na beleza
da flor de equinácia.

Como uma abelha operária
elaborando o sabor do mel.

RECORTE

então
fui mudando
aos poucos
mudei tanto
nesses tantos
anos loucos
e aprendi
que mudança
é coisa que
não tem fim
mudo ainda
mais um dia
até não mais
saber de mim

(Lau Siqueira)

NEGA PINTO

Caminhei. Andei distâncias imensas
e tardias. Caminhos efêmeros,
às vezes. Espalhei pegadas cruzando
lajedos e geadas.
Pés dormentes na brasa ou no gelo.
Todavia, caminhos não são estradas.
Distâncias diluídas onde a dois
palmos e meio o mandacaru
já não é o mesmo.
O caminho pode ser plano.
Ou uma verdadeira escalada.
Outra coisa é a estrada
e suas bifurcações.
Eu caminho pelo tempo.
Horário oficial do Seridó. Onde
a vida às vezes é salobra.
Em Frei Martinho
fiz a antropologia da alma – fui
rezado pela Nega Pinto.
(Nega Pinto é um ser encantador, uma Rezadeira que conheci em Frei Martinho. Fiz um poema pra ela"

APARÊNCIAS

A preço de hoje penso
que perdemos as contas.

Não há nada nas
gavetas.

Apenas aquela nudez na
imensa nitidez da Lua.

O tempo é um garimpo entre
a pedra e a pérola de cada
momento. Destampa os alaridos
e os silenciosos grunhidos dos que
sonham com o espelho jorrando
lembranças...

Na pele da tua espera
tatuei minhas armadilhas.
Escondi todos os medos
debaixo do tapete no qual
voava.

Não costurei as feridas
que tuas mãos cavaram
em mim.
Mas, senti a rigidez das
pálpebras secando uma
lágrima. Havia um epigrama
sob a janela...

ofuscando a retina.


(Lau Siqueira)

DE JAGUARÃO PARA JAGUARIBE

(ao amigo Paulo Ró)
Minha terra 
é o chão que piso. Cada polegada de caminho
e de pegada. No sentido
das sombras desvestidas
pela luz... A memória é o meu país.
Gaúcho, urbano, paraíba
e macuxi, tchê. Minha terra
tem coqueiros, butiás.
Figos e caju. Imenso céu azul. Tem sabores e enjoos.
Amor e névoa. Às vezes faz frio. Mas,
a vida é tórrida na torre
do meio dia. Minha terra? História
por onde meus passos
seguiram. Voos e pousos na causa
operária de desvelar
a própria teia... Sem bossa.
A vida às vezes tão triste,
noutras vezes é dolorosa. Insossa: ? : É caldo fino e veloz.
Mas, engrossa. Engessa,
enterra e cospe em cima. Também um Olimpo
e um Quilombo vestindo
o mesmo modelito
especialmente
feito. O mesmo conceito. Viver é bom. Mas, às
vezes falta jeito. (Lau Siqueira)

PONTO PASSIVO

chegou ferida de bala
jogou logo uma palavra
na lata da minha cara

tonto que nem colibri 
pousado no espantalho
tropecei no próprio riso

e na primeira tristeza
peguei a mesma palavra
estiquei o sangramento

destravei o pensamento
sacudi o meu tormento
no gelo do peito dela

e era quase um talibã
naquela noite terçã
fugindo de dentro dela

era uma dor tão caipora
que em meio ao tiroteio
sangrei no lado de fora

(LS)

ITABUNA

Se me perguntarem
o que senti em Itabuna,
cidade que gerou Jorge
Amado, direi que fui
amado na terra
de Jorge.

Acha pouco?

Saravá, Seu Jorge
Guerreiro! Marceneiro
a esticar no torno da
palavra escrita, a madeira
sem lei da história...

Do povo que nasce, morre,
volta, revolta e organiza o
quilombo na própria pele.

A cidade anda um tanto
descuidada. Mas, o Rio
Cachoeira ainda corre,
ainda belo, ainda
esquecido...

Talvez a cidade não saiba
que as suas melhores
paisagens

são as pessoas.

Pessoas que plantam flores,
que fazem amor, que sonham
com as cores e os perfumes
do acaso.

Planta, bicho, gente. Somos
a mesma multidão. Candomblé
no sangue da terra. No que
mesmo derramado se agrupa
e fortalece. No que passa como
um raio, mas tatua a cidade
na memória.

Em Itabuna a leveza
do vento carrega de
aventura o cheiro
do ar...

Itabuna é um cerco do olhar.

Cidade que geme de dor,
mas que também goza. No
ar que se respira, no vento
que vai em Ilhéus, só
pra ver o mar...

E volta pro m…

O QUE NÃO DEIXOU DE SER

De frente pra história apenas me curvo.
Pois há que se reconhecer o que é raro.
Como rara é toda verdade. Ave de
guerrilha no estribilho...
Pode ser que tudo exploda
em expressão e coragem...
Pode ser que tudo falte. Pode ser
que a noite emplaque. Pode ser que vate
ou quem sabe um mate. Erva na cuia dos
lajedos.
“Hoje acordei mais cedo” - disse. Às 4h
da madrugada não é mais o dia que vai
nascer mas a vida toda que passou
e ainda está aqui, sumindo, sumindo...
O tempo é longe!
Tem vez que a solidão toma conta. Nada
embriaga o que está só. Nem o vento. Ou
a escada.
Nem o haxixe das manadas...
O que ficou já não te pertence.
De tão imensas que são essas ilhas
da existência...
Às vezes penso nisso e
falta paciência.
(Lau Siqueira)

A ÚLTIMA PÁGINA

Não guardo mágoas. Pesam demais. São fardos que grudam
na pele e deixam as omoplatas
em carne viva.
Não guardo o que me fere para
além das próprias cicatrizes. São
exatamente as dores que não
fazem falta.
Aquelas que feriram fundo. Que
descarnaram a alma. Não hesito
em transbordá-las na primeira
janela...
Como num livro que
se lê de forma inconclusiva.
(Lau Siqueira)

LATITUDE

tem gente
que é grude

outros são
apenas nude

tem os sem
aço e sem
atitude

os que de
tanto suar
açude

hey
jude

SONHAR COM SERPENTES

Stop. Não se assuste. Não se
trata de vidência, mas de poesia.

Eram pequenas serpentes
apenas. Em algumas pessoas
elas ficam enormes. Engolem
quem se aproxima. 

Depois engolem a própria fome 
para saciar a miséria
do corpo...

Eram pequenas serpentes
que foram extraídas enquanto
estavas dormindo. Agora estás 
livre do veneno. Estás longe
de ser devorada,

comida das tuas próprias
demências.

As cobras extraídas representam
libertação. Significa dar lugar
aos pássaros do teu corpo e da tua
alma. 

Que saia o que
rastejaenha 
o que voa e canta...

Mas, o poeta não decifra sonhos.
Apenas observa e faz escolhas.

Escolhi cantar e voar pra você.
Vida de pássara que alimenta
o planeta.

Olha!
Sinta que já chegaram
os pássaros...

LS

O NOME DELE É JOÃO

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SOBRE EXPLOSIVOS E OUTRAS MISSANGAS

A poesia não abre portas. Não espalha
o ar rarefeito da sala. Não tira os pelos
da cama. Pentelhos...

Não importa aos senhores
do Conselho. Nem às senhoras
do movimento.

A querem luta. Pobre puta!

Aos suicidas é apenas o motivo. Que no
sabre sobra e surta.
É só um caos. Um penhasco do qual salto
sem asas para dentro das miragens.

A poesia não reconhece as covas
da eternidade. O cânhamo e não o cânone
é sua matéria.

Artéria de aquarelas. Metáforas singelas.

E a poesia, esperta, finge que é pássaro
e voa longe dasua verdade fingida.